O pior cego é o que não quer ver

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Em fila indiana seguimos Paul com a confiança que temos quando conhecemos alguém há muito tempo. O empregado invisual do restaurante guiava-nos através de um toque delicado até à mesa, onde, às escuras, iriamos experimentar as escolhas do chef.

Entre apalpões identificámos os utensílios para comer, o garfo à esquerda, a faca à direita e o copo à distância perfeita para que lhe pudéssemos quase intuitivamente tocar.

É assim que começa cada aventura nos restaurantes da cadeia Dine in the Dark, espalhados por várias cidades do mundo, estando o restaurante mais perto de Macau localizado na frenética e luminosa cidade de Bangkok.

Durante cerca de uma hora e meia tentaríamos comer às escuras utilizando outros sentidos negligenciados pelos olhos. O jantar foi feito de várias garfadas vazias no ar, alguns dedos dentro do prato quebrando as regras de etiqueta mas foi fácil identificar todos os ingredientes que nos são revelados já fora do restaurante em plena luz.

A experiência revela-se fantástica, conseguindo-se de algo nada agradável fazer algo melhor. Da conta uma percentagem reverte a favor de associações de apoio a invisuais e os guias cegos estão completamente integrados.

Para Paul com um sorriso aberto debaixo do candeeiro que se mantém na voz que ouvimos durante todo o jantar às escuras, trabalhar num restaurante é uma feliz oportunidade que não lhe seria dada se este conceito de cozinha não existisse.

Mas e o que nos surge na cabeça e diante dos olhos quando estamos a tentar focar no completo escuro não estando deitados de barriga para cima a fitar o tecto e a combater uma insónia?

Ao início surgem-nos milhares de luzinhas a piscar e os olhos não param de tentar focar, deixando-nos a cabeça a rodopiar. Mas o escuro vence, a massa cinzenta lá se acalma, os sons à volta gradualmente vão-se tornando maiores e os cheiros mais intensos.

À mesa sentam-se amigos que não se olham mas se conhecem pela voz e durante uma hora e meia ninguém pega no telemóvel para actualizar o “feed”.

É inevitável pensar durante aquela hora e meia em que estamos desligados do mundo o que seria se de repente deixássemos de ver, se tudo se apagasse e ficássemos no escuro total.

Pensei como seria atravessar a cidade de Macau sempre aos tropeções às pessoas que já não se afastam quando vêem bem, a ser enganada no troco como fazem agora com os turistas de Hong Kong porque as cores das notas são semelhantes e uma lista infindável de coisas de uma cidade que é nitidamente feita para as massas.

Pensamos apenas nas maiorias e assumimos tudo como certo neste nosso meio egoísta. É tão cliché esta ideia como as vezes que a repetimos a nós mesmos para nos convencermos de que é verdade: de que somos uns sortudos por termos cinco sentidos apurados.

No meu idealismo de quem quer o mundo mais equilibrado gostava de puder ver (ou sentir) que mais invisuais conseguem ter o mesmo sorriso que Paul e que não precisam de estar sentados à berma de uma estrada com uma mão estendida como se a única possibilidade por se ser cego fosse mendigar.

A sabedoria popular diz e bem que “o pior cego é aquele que não quer ver” e no meio daquilo tudo que não queremos ver lá vivemos em cidades feitas para as maiorias que não pensam no que seria se tudo isto estivesse sem luz.

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