O diabo e os detalhes

Editorial

Marco Carvalho

Há na zona norte da cidade um enclave nobre com um urinol no coração. Se de arte se tratasse, dir-se-ia que é como que a reencarnação local do famoso urinol de Marchel Duchamp, ainda que sem sentido estético, sem transfiguração do real e sem outra utilidade que latrínicas funções a que se destina.

É uma daquelas caixas toscas de poliuretano a que o Portugal dos festivais de Verão está bem habituado: tresanda a urina e a gente enrascada, que se alivia ali com um desembaraço animal (a respiração contida num longo fôlego), porque quando o nobre enclave foi planificado ninguém teve clarividência suficiente para se lembrar de que a condição humana é, antes de qualquer outra coisa, a estranha conjugação entre a expansividade do livre arbítrio e a bestialidade das manifestações de índole fisiológica que amansam o mais inchado dos ecos e nos recordam que, afinal, pouco mais somos do que pó e ao pó voltaremos.

Estóico exemplo de mau gosto numa zona onde as rendas valorizam mais que a Bolsa de Xangai nos seus melhores dias, o urinol não tem existência autónoma: é como que a cereja no topo do bolo de uma estrutura – a designação será talvez excessiva – que poderia muito bem ser o exemplo acabado da precariedade das soluções apadrinhadas pelo Governo. O quarteirão residencial da Pérola Oriental, com as suas torres que espelham as obras do Delta, é servido por uma estação de autocarros a céu aberto onde não são dadas condições nem aos funcionários da concessionário de transportes públicos que ali opera, nem aos muitos clientes que recorrem aos serviços da empresa. Nos dias de chuva, um segundo banho é uma inevitabilidade. Nos dias de calor intenso, cinco minutos de espera são cinco minutos de agonia.

Um e outro detalhe, uma e outra pequena frustração, aliadas à crónica falta de regularidade das carreiras, ao azedume quase genético dos condutores, à irascibilidade dos passageiros e ao excesso frequente de carga humana (amplificado nas horas de ponta), são razões mais do que suficientes para que o mais inveterado dos ambientalistas ou o mais sacrossanto dos apologistas dos transportes públicos se rendesse à desafortunada e egocêntrica ideia de ter de comprar uma motoreta e de sprintar peões salta-pocinhas, escapar às tangentes da furgões e camionetas e, lá pelo meio, sobreviver.

Apanhar um autocarro em Macau é um acto estóico, de expiação social, digno da bondade de um Gandhi e da paciência de um Mandela, mas avante, que o texto não é sobre autocarros. É sobre mictórios e mictórios dados a um certo surrealismo, por existirem onde não deviam. Ora, o Marcel Duchamp da Areia Preta, num destes dias em que o território esteve sob a ameaça de tufão e o vento se afunilou de modo mais feroz por entre as torres do enclave nobre, adquiriu contornos de obra de arte dinâmica: uma ou outra rajada mais forte fizeram tombar o urinol e um tapete de matéria fecal espalhou-se pela zona da entrada do tal parque improvisado de autocarros, com densas malhas de castanho vivo pintalgadas de onde em onde pelo branco orgânico de papel higiénico semi-dissolvido. Um Jackson Pollock maduro, de última fase, dir-se-ia.

A carpete esteve ali estendida um bom par de horas sem que alguém se mostrasse incomodado ou lhe deitasse por cima um inócuo balde de água ou por pudor ou por misericórdia ou por descargo de consciência. A Areia Preta é, ainda assim, a modos que privilegiada. O caixote de poliuretano que nos dias de maior calor enche de feromónico fedor o coração do bairro é como que um palácio face ao que existe noutras zonas da cidade. No apinhado centro da cidade, onde as hordas em transumância chegam para assustar o mais intrépido dos residentes, é preciso fôlego e resistência para resistir às urgências da natureza humana. Ou isso, ou urinar na rua. O diabo, dizem os norte-americanos, está nos detalhes. E há detalhes com força suficiente para deitar a perder a melhor das intenções: de que vale o folclore do centro internacional de turismo de lazer se os arbustos continuam a ser os melhores amigos dos aflitos?

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