Alegoria indiana

Ana Paula Dias

Uma alegoria é uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, a sua expressão transmite um ou mais sentidos além do literal. Diz-se “b” para significar “a”. Embora opere de maneira semelhante a outras figuras retóricas, a alegoria vai além da simples comparação subentendida da metáfora. A fábula e a parábola são exemplos genéricos de aplicação da alegoria, às vezes acompanhados de uma moral que deixa claro a relação entre o sentido literal e o sentido figurado.

Feita a clarificação do sentido do termo, passe-se à história que se pretende contar: em recente viagem de avião em que estava disponível o jornal Gulf News[1], chamou-me a atenção um artigo intitulado Punjab English teachers show ‘leak of interest’. Refere o artigo que os professores de inglês desta província indiana chumbaram num teste de inglês a que foram submetidos e que, desde o emprego dos tempos verbais à ortografia, tudo o que escreveram estava errado. É apresentada uma lista de exemplos retirados das provas de 220 docentes das escolas públicas, que tinham sido convocadas por um organismo governamental para explicar os fracos resultados dos seus alunos na disciplina de inglês. Este organismo, o Conselho de Educação, chamou todos os professores para uma reunião e solicitou-lhes que justificassem as razões do elevado nível de insucesso dos seus alunos e que dessem sugestões para inverter a situação.

Segue-se, no artigo, a transcrição de mais uns quantos exemplos de frases minadas por erros gramaticais e lexicais proferidas durante o referido encontro, algumas francamente anedóticas e termina esta peça com a conclusão do responsável pelo Conselho de Educação: o insucesso deve-se à (má) qualidade dos professores e não à falta de estudo ou empenho dos alunos.

Claro que não ficamos a saber como é feita a formação inicial destes professores, nem a contínua, mas pelo menos fica-se a saber que os responsáveis pela educação naquele estado indiano não esquecem a necessidade de levar a cabo um trabalho constante de monitorização do sistema educativo, demostrando ter uma visão global das competências que um aluno deve ter em dadas etapas do seu percurso escolar e das aprendizagens a adquirir. Sem este tipo de monitorização – que não significa “punição” – sem que haja um retrato do sistema, cai-se no “remendismo”, com a aplicação de medidas avulsas, baseadas em dados dispersos. Uma política educativa séria pressupõe inequivocamente que as finalidades a alcançar ou as mudanças a realizar sejam progressivas, planeadas, negociadas, avaliadas e, sempre que necessário, corrigidas e continuadas. Singapura, já aqui mencionada algumas vezes por ocupar os primeiros lugares nos programas internacionais de avaliação de alunos, tem um instituto independente do Ministério da Educação que monitoriza o sistema, levando a que, de seis em seis anos, os novos programas e outras alterações sejam feitos com base nessa monitorização.

Volta-se ao primeiro parágrafo deste texto e ao significado de alegoria; diz-se “b” para significar “a” e está tudo explicad

[1] De 28 de junho de 2015.

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