O poder da abstracção

Água mole em pedra dura

Catarina Mesquita

Esta terça-feira os Serviços de Educação informaram publicamente que pretendem dar a possibilidade aos alunos do ensino infantil de aprenderem de forma lúdica.

As novas medidas aliviam a pressão dos mais novos de saberem escrever e ler antes de integrarem o ensino primário onde vão aprender especificamente essas competências.

Quando fui para a primária apenas sabia escrever o meu primeiro nome. Tinha colegas que já sabiam escrever o abecedário todo de frente para trás e de trás para a frente, mas a grande maioria da turma tinha passado grande parte do pré-escolar a brincar, a cantar e a sujar as mãos com guaches, não tendo aprendido a ler uma única palavra.

A Primária era o começo daquilo que nunca mais parou de acontecer. Uma vida de constante aprendizagem entre calhamaços de palavras empilhadas com temas interessantes e outros nem tanto.

Por isso, posso dizer que apesar das vagas memórias que tenho dos anos da pré-primária, foram anos felizes para brincar. Ria, gritava e mexia-me muito como a maioria das crianças que vejo em outros lugares fora da China.

Por aqui as crianças são excessivamente bem comportadas, sentam-se nos autocarros e nos bancos de jardim estáticas, paradinhas mesmo, falando pouco, gritando ainda menos e ver um sorriso naquelas caras parece um milagre.

Em tempos uma educadora de infância a iniciar carreira em Macau contava-me que as crianças não podiam correr na sala, tinham poucos brinquedos – não existiam as típicas cozinhas de brincar e o cantinho das histórias – e havia um horário extremamente rigoroso entre cada actividade.

As crianças chegavam a ter apenas 45 minutos por dia para pintar um desenho.

Sei que nem todas as escolas de ensino infantil em Macau são assim, mas são poucas aquelas que ao fim de três anos têm alunos a integrarem o ensino primário só a saberem escrever o primeiro nome como a pequena Catarina e a sua turma dos anos 90.

Se a política do “vamos deixar as crianças serem crianças” for em frente, os Serviços de Educação prestam-se a dar alguns ataques cardíacos aos pais quando virem os seus filhos a pintarem os desenhos fora dos riscos, a desenharem o sol com lápis azul e a pintarem o céu de amarelo (o que não está necessariamente errado).

Ontem – numa das poucas vezes em Macau – apeteceu-me aplaudir de pé um discurso vindo de um departamento do Governo, quando ouvi um representante da DSEJ dizer que terá de ser dada a mesma importância às emoções e à capacidade de expressão dos alunos que aquela que é dada aos facto de estes saberem de cor as matérias teóricas.

Se as crianças que integram pela primeira vez o ensino infantil forem realmente aprender brincando e passarem a ser avaliadas tendo em conta as suas capacidades cognitivas e também emocionais, acredito que teremos mais pessoas com poder de abstracção em Macau, esse “super-poder” tão raro por esta terra.

Daqui a 15 anos teremos pessoas que agem com emoção perante o que fazem, que agem com emoção perante o que os outros fazem, que questionam, que duvidam, que arriscam.

Vejo estas crianças virem a ser verdadeiros talentos, aquela raça em vias de extinção e tão procurada em Macau.

A infância deve ser livre, descomprometida, divertida e abstracta. Há demasiado tempo para se ser sério com o nariz enfiado em livros, ainda que haja bons livros para crianças… mas isso já é outra conversa.

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