Minissaiam mas é da frente

[Tapau no Bufê]

Rodrigo de Matos

Parece que andam uns apalpadores aí à solta pela cidade. As notícias deste fim-de-semana dão conta de que várias mulheres, sobretudo jovens estudantes, andam a queixar-se de uns ataques surpresa destes “snipers” do apalpão. A modalidade tinha estado meio apagada das notícias nos últimos tempos, mas é já bastante antiga. Praticada livremente nas ruas de qualquer cidade, funciona da seguinte forma: o atleta aproxima-se furtivamente por trás da sua adversária que, quando dá por ela, está a ser sujeita a uma massagem-relâmpago nalguma parte do corpo, que termina normalmente com uma fuga apressada do apalpador. Uma espécie de simulacro de ejaculação precoce.

Talvez por não estar devidamente regulamentada – ou, quem sabe, por não passar de estupidez? – esta prática é vista com maus olhos por grande parte da sociedade. O recente reacender da actividade apalpadora e a inabilidade das autoridades e do sistema jurídico em lidar com o problema despertaram uma pérola da sabedoria popular que andava adormecida: a regra “Não usarás minissaia”, que só não entrou nas Tábuas de Moisés porque “Onze Mandamentos” não soava tão apelativo na opinião da equipa de marketing da comissão instaladora da Igreja Católica, e ninguém se lembrou de que “Não cobiçarás as coisas alheias” já englobava “Não desejarás a mulher do próximo”. Mas, adiante, que este Tapau não é sobre isso (logo faremos no futuro uma exposição mais detalhada sobre os Dez Mandamentos, explicando porque é que estão mal formulados).

Não usar minissaia e não sair à noite parecem regras muito razoáveis que funcionam como medidas preventivas, como não beber uma garrafa de vinho antes de conduzir ou não atravessar a rua (nem nas passadeiras). Toda a gente sabe que a exposição de partes suculentas do corpo das mulheres desperta a libido dos taradões. É uma provocação tão grande como um sujeito passear-se pelas zonas de maior densidade navalhográfica de Lisboa envergando uma camisola do FC Porto. “Estava mesmo a pedir!”

Resolver adoptar essa regra de forma literal e promover o desminissaiamento da sociedade pode criar uma bola de neve de precedentes infinitos, dada a diversidade das taras humanas. Alguém já ouviu falar de podolatria ou de nasofilia? Pois é. Foi essa linha de pensamento que levou, em última instância, ao aparecimento da burca nalgumas tradições islâmicas. Vejam lá se querem isso para Macau. Deixem a minissaia em paz!

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