Macau e a Macaulogia

Dinâmicas e contextos da pós-transição

Carlos Piteira

Está longe dos meus propósitos, pelo menos nesta crónica, esclarecer ou definir o que é de facto a Macaulogia no sentido em que se vai apropriando de uma vertente académica dos chamados Estudos sobre Macau. A transposição do sufixo “logia” para Macau nesta concepção entende-se perfeitamente pela sua analogia com o termo da Sinologia enquanto definidor dos estudos sobre a China, o que me merece todo o respeito apesar das diferenças de dimensão.

A título pessoal, tenho tido o privilégio de poder ir acompanhando as dinâmicas e os contextos que esta vertente tem vindo a assumir, quer pela participação directa nos encontros internacionais, e já lá vão quatro, quer pela troca de ideias e conversas que vou tendo com os investigadores que contribuem para esta concretização.

O último encontro realizado entre 24 a 26 de Junho, nas instalações da Universidade de Macau, congregou cerca de 50 personalidades de nacionalidades diversas de entre os quais 34 investigadores que apresentaram súmulas e artigos sobre o tópico denominado: «A construção da disciplina através da criação da literatura».

Sendo o tema propício às questões levantadas sobre a identidade de Macau e dos macaenses, isto apesar da tónica dominante ter incidido sobre a legitimidade das fontes documentais e dos processos de tradução, não pude deixar de referir alguns pressupostos que acho defensáveis nesta abordagem, nomeadamente, sobre a problemática da existência (ou não) de uma literatura macaense com traço identificador (ou produtor) dos traços de identidade que caracterizam a realidade de Macau.

Quando resvalamos para as questões identitárias no contexto da RAEM (Macau), a ambivalência e a ambiguidade continuam a ser a marca distintiva e caracterizadora dessa mesma questão.

Neste sentido, de entre as várias possibilidades de análise possíveis, apenas me foquei na problemática da literatura inserida nos chamados «Estudos Culturais» (traduzido literalmente da denominação “Cultural Studies” pelo qual é conhecida) como ramo específico das Ciências Sociais, apresentando-se como possibilidade de edificação e construção de identidades que incorpora o padrão cultural do quotidiano que Macau vai tecendo através dos seus escritores e não tanto pela sua essência literária.

A importância que este segmento tem trazido para o tema das identidades é bastante revelador, criando mesmo um campo de pesquisa e investigação que integra, essencialmente, os chamados estudos de literatura e cultura, isto, apesar das posições assumidas nessa linha de investigação não serem pacíficas, admitindo várias metamorfoses que remontam desde o Séc. XIX até aos dias de hoje, o mote por excelência é o da explicação da cultura/nação através da cultura de massas ou dos grupos sociais e nalguns casos mesmo, como contra cultura ou cultura popular.

Nesta simbiose, a temática dos «Estudos Culturais» vai ganhando uma dimensão como metodologia de pesquisa baseada no contributo da produção literária para a identificação da(s) cultura(s). Apenas como exemplo deixo aqui, a título de citação, as questões que equacionei durante o encontro e que ilustram, em resumo, as possibilidades que o campo da Macaulogia pode também englobar.

“Uma das áreas privilegiadas sobre a interpretação da dimensão cultural assenta na possibilidade da elaboração dos designados «estudos culturais» que abarcam essencialmente o papel da literatura, ou em rigor, da produção literária local e o modo como a mesma constrói e desconstrói as dinâmicas identitárias através da expressão do sentir dos seus autores.

No caso de Macau, arriscaria a tentar uma abordagem genérica no sentido que equacionar a existência, ou não, de uma literatura macaense ou de Macau, e até que ponto a expressão literária de Macau fundamenta a sua relação com os chamados «estudos culturais»

Existe de facto uma expressão da identidade macaense através da produção literária de autores que a reclamam? Ou apenas estamos perante fragmentos soltos que nos vão dando a ideia da segmentação dessa hipótese?” (1)

O facto que mais estranhei no decorrer dessa manifestação/evento foi talvez, a quase ausência do interesse sobre o tema, quer pelos Mídias, quer da população em geral, de matriz lusófona. Será que o referencial dos estudos sobre Macau numa vertente mais académica já não lhes (nos) interessa? Ou apenas se tratou de uma distracção levada a cabo pela proximidade do tempo de férias?

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