Silêncios e nãotícias

[Tapau no Bufê]

Rodrigo de Matos

Exerci a profissão de jornalista em Portugal durante seis anos, entre 1999 e 2005, e conheço bem a cultura dos silêncios, de porta-vozes que não querem ser citados, de responsáveis de comunicação que fazem de tudo para evitar comunicar. Mas Macau pode orgulhar-se de ir mais além no capítulo da contenção informativa. É frequentemente quase impossível falar com alguém que dê a cara por uma instituição, uma empresa ou – cúmulo dos cúmulos – um evento, que teoricamente interessa promover, o que comprova que estamos mesmo num oásis de liberdade de expressão. As pessoas são tão livres de dizer o que pensam que, se lhes apetecer, podem simplesmente dizer “não falo” dentro da maior normalidade.

Os meus colegas em Portugal costumavam apontar o dedo a resquícios do regime salazarista que insistiam em perdurar na mentalidade das pessoas que lidam com os jornalistas. À caça de notícias, cheguei a ter conversas magníficas com porta-vozes que terminavam conversas com o clássico “não confirmo nem desminto” e, para garantir, acrescentavam: “Atenção que eu não quero ser citado, isto é em ‘off-the-record’”. O que é qualquer coisa como: “Eu não lhe disse nada, mas não pode escrever que fui eu que não disse”. Há ou não há aqui uma refinação quase zen?

Isto era frequente passar-se no dia-a-dia de um jornalista em Portugal sempre que se conseguia entrar em contacto com um responsável, o que, por si só, podia ser uma bela corrida de obstáculos, sendo que o primeiro era a secretária. Estas guardiãs do sossego dos seus patrões eram investidas de um poder que nem as próprias compreendiam. Treinadas em repetir frases como “quer falar com o senhor engenheiro sobre o quê?” ou “ai, o senhor doutor não fala com jornalistas”, despachavam com grande eficácia os profissionais da comunicação social.

Mas eram os ossos do ofício naquele contexto. Hoje em dia, na era dos telemóveis e das redes sociais, é muito mais fácil entrar em contacto com as pessoas. As empresas e instituições em todo o mundo percebem melhor a importância de comunicar bem, sabem que é preferível veicular o seu ponto-de-vista, do que pura e simplesmente não comentar assuntos em que são protagonistas.

Em Macau, profissionais são contratados para esse efeito, para garantir que os seus empregadores apareçam nos média como personagens positivas, activas, e sem nada a esconder. Recentemente, tive de entrar em contacto com uma dessas pessoas, encarregada de comunicação de um evento de grande envergadura que vai decorrer em Macau em breve. “Leia o nosso comunicado de imprensa que está lá tudo” e “não vai ser possível falar com nenhum responsável esta semana” tiram todas as dúvidas: é com um profissional de comunicação que estou a falar. E dos bons!

Terá sido o domínio dessa técnica que permitiu o aparecimento na imprensa de um estilo requintado de jornalismo: as chamadas nãotícias. Tratam-se de artigos escritos pela negativa e informam aquilo que o jornalista conseguiu não descobrir. O maior exemplo de nãotícia li-o há uns anos num telex da agência noticiosa portuguesa acerca de um assalto a uma gasolineira: “Depois de ameaçar o funcionário do posto com uma arma não identificada, o grupo de alguns assaltantes fugiu com uma quantia não referida para parte incerta”. Uma pérola!

Por falar em pérolas, já sei que esta crónica vai aparecer amanhã citada por alguém no Facebook, mas, já agora, gostava que não referissem o meu nome. Estou a tentar criar o conceito de artigo de opinião ‘off-the-record’.

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