Histórias más com gente dentro

Editorial

Marco Carvalho

O drama da pequena Chyn, noticiado por este jornal na sexta-feira passada, é o tipo de história sobre o qual nenhum jornalista gosta de escrever. Por um lado, pela natureza dos factos relatados. Por outro, porque as chamadas “histórias de vida” quando mal contadas ou quando exploradas com outros propósitos que não informar, confrontam jornais e jornalistas com o espectro da próprio insolvência moral da profissão.

Ao eliminar a necessidade premente de operar de acordo com as leis da concorrência, a subsidiarização da imprensa em língua portuguesa de Macau, aliada à reduzida dimensão da comunidade, têm poupado os jornais – e de um modo geral os meios de comunicação do território que mantêm vivo o idioma de Camões – a grandes dilemas de natureza ética ou deontológica. Os desafios persistem e persistem a diversos níveis, mas os jornais têm conseguido sobreviver com alguma verticalidade aos imperativos do mercado. Noutro lugar e noutras circunstâncias, o drama de Chyn teria, muito provavelmente, sido explorado de outra forma, com o propósito de garantir audiências, de vender jornais e de angariar publicidade.

Rapidamente apodado como tal, o drama de Chyn é, no entanto, uma falsa “história de vida”. É bem verdade que os condimentos que ajudariam publicações como o “Correio da Manhã” ou o britânico “Daily Mail” a vender uns bons milhares de cópias estão presentes na narrativa da pequena bebé filipina, mas o drama de Chyn tem sobretudo contornos políticos e identificar o caso de outra qualquer forma é escamotear a incómoda anormalidade do território do ponto de vista social e reforçar um discurso oficial que promove aberta e vergonhosamente um regime segregacionista de apartheid.

Em pleno século XXI, o simples facto da sorte e dos direitos de alguém serem conformados à nascença pela etnia ou peles genes que transportes deveria ser motivo suficiente de embaraço para qualquer Governo ou governante. É, no entanto, de Macau que falamos e em Macau a falta de coragem de quem governa, aliada à indiferença de quem é governado e à conivência de quem teria por função criticar e induzir ventos de mudança – os deputados da Assembleia Legislativa, mas também os académicos e investigadores das universidades do território – ajudaram a conformar uma sociedade que caminha a passos largos para a desumanização. Se os mecanismos de ostracização económica dos imigrantes que procuram melhores condições de vida em Macau fogem, em parte, ao controlo directo do Governo, o mesmo não sucede com o âmbito de abrangência dos mecanismos de acção e de assistência social. O “Estado social” em Macau – se é que nos podemos referir com tal pompa aos rudimentos de previdência social que por cá existem – está, para bem e para o mal, a milhas de distância do oneroso e burocrático aparelho que se tornou um fardo na Europa e no Ocidente. Nem por ser mais restrita e maleável, a assistência social é mais justa, fruto de uma cegueira política que se afigura cada vez mais como um cancro de carácter que em nada serve o bom nome de Macau e a ideia de tolerância a que o território sempre esteve associado. Um imigrante que viva e trabalhe no território – os verdadeiros imigrantes e não os que se escudam no conforto do conceito artificial de “residência” não possuem quaisquer direitos de segurança social, não são abrangidos pelos mecanismos de assistência médica e uma simples consulta é cobrada a 200 por cento do valor original. Se é verdade que o preceito darwinista da sobrevivência do mais forte encontra equivalente nas pulsões e impulsos que conformam a evolução social, a minha homenagem a Chyn e aos imigrantes que lutam, muita vezes literalmente, pela vida no território. Em Macau eles são os verdadeiros sobreviventes.

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