Respeitar as várias camadas

[Activo Estratégico]

Patrícia Silva Alves

Na entrevista que deu ao PONTO FINAL na semana passada, Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, falou sobre o simbolismo de escavar paredes, a forma como o artista actua sobre os edifícios antigos e lhes dá, por essa via, uma nova vida. Disse Vhils: “Acredito que tanto as paredes como outras matérias reflectem a passagem do tempo na acumulação das suas camadas. Escavar é quase como um acto de arqueologia urbana contemporânea.”

Esta ideia de inscrição da passagem do tempo nos edifícios é, a par com a sua importância para o colectivo, o que transforma um simples prédio em património e lhe confere uma dimensão nova aos olhos de todos.

Acho interessante por isso que o artista tenha abordado a questão das paredes como uma sobreposição de tempos e de circunstâncias e, por consequência, evidenciando a sua dimensão histórica.

Não sou perita na área da preservação do património. Sou apenas fascinada pelo incrível facto de as paredes e as construções resistirem ao longo dos tempos, algo que nós, com a nossa condição humana findável, não o poderemos alguma vez alcançar. No fundo, fascina-me (e invejo, se esse verbo se pode usar aqui), o facto de um edifício não ser apenas testemunha do seu tempo, mas também ter passado por vários tempos.

Agrada-me também que, ao ver fotografias antigas de algumas partes de Lisboa seja como ver a cidade agora. O Largo do Rato, por exemplo, manteve-se intacto desde o início do século e, só por isso, sentimos que as diferentes camadas que compõem aquele espaço continuam ali – e que crescem todos os dias.

Respeitar os edifícios e a história que lhes está associada – ou apenas o facto de serem uma referência para que um local continue a ser o que sempre foi para nós – é essencial. Confere alma a um sítio.

Gostaria que sempre que se fala em preservação do património em Macau, essa fosse a ideia mais premente – que as paredes têm uma história e uma densidade.

Acredito que tecnicamente isso não seja sempre possível preservar. Como disse, não sou perita na matéria. Mas gostaria que o Governo, que está agora a estudar a reconversão do Hotel Estoril, por exemplo, tivesse essa prioridade em mente: alterar fachadas ou mesmo demolir edifícios é como arrancar a história a um sítio. É como arrasar as várias camadas deixadas pela passagem do tempo e deixar apenas uma – a do presente.

E essa camada, não se julgue que não, terá também a sua história. Ela, que surge depois de uma demolição ou alteração radical de uma fachada será, a partir daí, testemunho de que a preservação da história não foi uma prioridade para quem manda.

Espero que isso não aconteça porque todos ficaríamos a perder, mas sobretudo Macau.

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