Desagregação europeia

Tapau no Bufê

Rodrigo de Matos

Não sei se alguém reparou que os gregos foram às urnas no domingo. Uma vez que pouco ou nada se tem escrito sobre isto, o Tapau no Bufê considera importante informar os nossos leitores de que os eleitores na Grécia votaram num referendo com uma pergunta de sim ou não, em que lhes era perguntado se aceitavam os planos da troika de lhes aplicar mais uma injecção de austeridade, uma espécie de antibiótico contra a deseurite (uma doença que, em estado avançado, pode causar a saída do euro).

Cansadas de levar na moussaka, as pessoas na Grécia escolheram dizer “Oxi” (Não) às propostas dos credores e imediatamente as redes sociais ficaram inundadas com mensagens a congratular a “vitória da democracia” e títulos de jornais como “Vitória do ‘Não’ é vitória da democracia”, “Ganhou a democracia” e outros do género.

“Ó, Rodrigo, então sempre houve uma enxurrada de textos sobre o tema!? Estás a contradizer o que tinhas escrito no início da crónica”. Pxt!… Cala-te! Era sarcasmo para efeitos de comicidade.

Bom, mas voltando à questão da “vitória da democracia”, eu fiquei a pensar o que teria sido uma “derrota da democracia”? Se tivessem ido só umas dezenas de pessoas votar e o resto, tudo para a praia? Se a votação tivesse degenerado em violência, com a multidão a atear fogo às urnas antes de os votos serem contados? Um golpe de Estado?… Aparentemente, o que a grande parte dos comentários sugeria era que bastava ter ganho o “Sim” para que fosse uma derrota da democracia. O que é estranho porque, teria sido sempre uma escolha feita por sufrágio universal, ou seja, resultado de um acto eleitoral democrático. E de democracia percebem os gregos. Caramba, foram eles que a inventaram!

Houve quem fosse mais a fundo e, após analisar o que estava a ser deixado nas mãos dos eleitores para que decidissem, acabassem por considerar o referendo um absurdo, por propor uma alternativa que não existia. Mais ou menos como perguntar a um sem-abrigo se queria dormir na rua ou no hotel. Quanto a mim, acho que a pergunta era mais… Queres continuar a dormir na rua enrolado em jornais, ou preferes passar para debaixo da ponte mas sem direito a jornais?

Dois dias bastaram para que o referendo aparecesse como algo inútil que, na prática, nada de relevante trouxe para a resolução do drama grego. A bem da verdade, após as pessoas terem feito a cruz nos quadradinhos do boletim de voto, bem poderia ter ido alguém com corrector e mudado a pergunta para: “Este referendo vai contar para alguma coisa?”

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