A democracia insustentável

[Pode ir à sua vida]

Sandra Lobo Pimentel

Os gregos votaram ‘não’ no referendo sobre as propostas dos credores internacionais e a sensação com que se fica é de pré-catástrofe, como se algo estrondoso estivesse para se abater sobre o país. Ou melhor, foi a sensação que quiseram passar, aqueles que resistiram à ousadia grega. Outros, olham para a coragem dos que ousaram e vivem na esperança de que o exemplo seja seguido por essa Europa fora.

Nem tudo é referendável, sim. Sou dessa opinião se, actualmente, na Europa, os cidadãos pudessem legitimar os governantes a tomar decisões em nome de todos. Mas ficando-me por Portugal, está difícil confiar que os mandatos conferidos aos governantes venham a resultar na efectiva defesa dos interesses das pessoas.

Pensar em dar a palavra aos portugueses sobre quaisquer decisões a tomar no que respeita à dívida pública e aos compromissos financeiros do país, então, é um cenário completamente fora do horizonte.

Não se vislumbra que o governo português possa vir a bater o pé ao absurdo europeu como fez Tsipras e companhia. Aliás, o panorama é assustador: António Costa, líder do Partido Socialista e candidato a primeiro-ministro do país, já comentou a situação grega e a postura de Tsipras dizendo uma coisa e o seu contrário no espaço de poucos meses. Portanto, as opções democráticas que se apresentam nos boletins de voto em Portugal são muito inspiradoras…

Mas a democracia tornou-se quase insustentável. Parece um pouco radical dizer isto, mas perante as escolhas democráticas que se fazem em Portugal, os resultados de eleições deviam culminar com o decretar do estado de emergência nacional.

Resumindo e concluindo, quando olho para as tomadas de decisão que chegam de Lisboa, pergunto-me se o ideal não era pedir aos gregos que decidissem. Quando é que chega um Tsipras e um Varoufakis a São Bento? Será preciso esperar muito?

Até lá continuamos a ver os sorrisos disparatados dos governantes portugueses, vergados a uma Europa orientada por Merkel que muitos europeus não desejam.

Mas a democracia é isto mesmo. De vez em quando lá nos chamam para ir escolher umas coisas e prometem que vai ser mesmo aquilo. E uma e outra vez acreditamos que vão mesmo fazer o que prometem e lá vão eles para o poleiro por mais uns anos.

E dizem-se coisas bonitas, fala-se de ideologia e quase que o coração bate mais forte na esperança da mudança e de dias melhores (ou não…). Mas para quem já perdeu ou nunca teve essa visão romântica das coisas, pergunto: então e um Tsipras quando é que chega?

Só para avisar que já somos muitos à espera…

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