Cinco lições gregas

Marco Carvalho

  1. A Grécia do pós-referendo ainda não conquistou nada, mas já recuperou alguma coisa: uma certa dignidade. Na encruzilhada onde se encontra, a velha Hélade não perspectiva outro cenário que não a morte: ao votar “não” no referendo de domingo, os gregos optaram por uma irredenta, por enfrentar os algozes e o pelotão de fuzilamento de olhos bem abertos e por saudar um destino incerto com a efémera certeza de que o futuro – qualquer que ele seja – lhes pertence. O triunfo do “não” no plebiscito de domingo é, porventura, o primeiro grande acto ideológico a abalar a Europa desde que os republicanos espanhóis fizeram do grito “No Pasarán” um exemplo de integridade política antes de tombarem, crivados de balas.
  2. A alternativa à eutanásia colectiva – perante uma Europa intransigente, mais preocupada com a saúde dos mercados do que com a capacidade de resistência e de sacrifício dos europeus – seria, no caso grego, a morte sofrida em que fenecem os pacientes terminais: nada há de mais cruel do que a ténue sombra da esperança para quem já tem um pé na barca de Caronte. Cinco anos de resgates, de políticas de austeridade, de cortes e privações nada fizeram em prol da Grécia e do povo grego porque a Europa – uma Europa vampírica e antropofágica – não fez mais do que alimentar a sua própria sede de sangue. A Grécia é um disco riscado, um uróboro que se devora a si mesmo porque não lhe sobra alternativa, porque não lhe sobra outra alternativa: dos muitos milhões que as entidades credoras fizeram chegar a Atenas ao abrigo dos últimos mecanismos de resgate, menos de um quinto foram utilizados para manter a economia grega à tona e para fomentar prerrogativas de recuperação económica. O restante capital, desviado para a amortização de uma dívida inamortizável, não tem entrado sequer no circuito económico grego. Tivessem Alexis Tsipras e Ianis Varoufakis aceite as condições do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e da Comissão Europeia, a Grécia – que não morreu da maleita – continuaria a sucumbir lentamente à cura.
  3. Morreu há pouco mais de um mês. De posses, deixou dois esguios cães com faro para a perdiz, uma caçadeira sobre a chaminé e dois maços de notas – um de 50, o outro de 20 euros – entalados entre o estrado da cama e o colchão: Manuel José era um dos portugueses de antanho que nunca utilizaram um terminal de Multibanco, nunca ouviram falar de Googles, de Facebooks e de redes sociais e não compreenderiam, mesmo que a explicação fosse transparente e aquilina, as razões por detrás do default da Grécia ou da extensa dívida de Portugal. Como Manuel José, acredito, existem centenas de milhares de gregos. Como se explica a alguém que enfrentou uma ditadura, que passou pela violenta humilhação dos processos de racionamento e que foi apanhado – quase a contramão – no turbilhão da euforia europeia que deve dinheiro que nunca pediu emprestado ou que nunca possuiu? O “monstro” da dívida grega alça-se à incomensurável quantia de 316 mil milhões de euros, o equivalente a 180 por cento da riqueza produzida no país. Feitas as contas, cada grego – crianças e velhos, trabalhadores e inválidos – deve 30 mil euros à santíssima trindade obscura que domina a política e a finança europeias. Com ou sem referendo, a quantia deve continuar a crescer e com ela o sufoco do povo grego e a indiferença de uma Europa que deixou de saber conjugar a ideia de solidariedade e esconjura, de forma cada vez mais despudorada, os valores democráticos de que se diz partidária e defensora.
  4. Poucos eventos na história recente da Europa e do mundo tiveram um capital simbólico tão grande como o referendo de domingo último na Grécia. Não deixa de ser irónico que o último acto de tão abrangente simbolismo tenha tido um muro e uma Alemanha dividida como protagonistas: a queda do muro de Berlim e o consequente debacle do modelo comunista inauguraram uma nova era e fizeram os europeus acreditar que o Homem, onde quer que esteja, para além do direito à vida, tem também o direito à esperança. Foi pelo direito à esperança que muitos gregos votaram anteontem: esperança na recuperação da soberania, esperança numa Europa mais solidária ou, simplesmente, na obtenção de um emprego e na melhoria das condições de vida. Na pátria da democracia, a opção, tomada por Alexis Tsipras e por Yanis Varoufakis, de oferecer ao povo grego o ónus de decidir, empossou o Governo de Atenas de uma legitimidade que Bruxelas – do alto de toda a sua burocracia – nunca teve.
  5. A aritmética da dívida e da governação não se faz preto no branco, mas o entendimento de quem julga foge, o mais das vezes, ao colorido das circunstâncias. A segunda grande lição dada pela Grécia este ano à Europa e ao mundo materializou-se no domingo, com um impacto arrebatador: se não podes oferecer dracmas, oferece democracia. A Europa, como se previa, não conseguiu evitar a ratoeira moral e está, mais do que nunca, refém de um dilema: salvaguardar-se como entidade de aforro ou reabilitar-se como projecto político. No início do ano, o povo grego – diga-se o que se disser, o indómito povo grego – já tinha dado mostras de um pioneirismo admirável ao condenar nas urnas o PASOK à extinção. O partido dominou a paisagem política do país durante quase três décadas e foi um pilar do sistema político grego até ao início da crise em que o país se encontra mergulhado. Hoje ninguém na Grécia sente a sua falta, o Parthenon não caiu e a praça Syntagma – a julgar pelo que se viu no domingo – continua a ser um bastião de autonomia. Quem me dera poder escrever o mesmo a propósito de um certo largo de Lisboa.
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