O milagre do Mekong

Fernando Sobral

Há quem diga, como alguns monges de Luang Prabang, que o milagre do rio Mekong é estar em todo o lado ao mesmo tempo. É a mais cristalina das verdades. O Mekong está no Tibete, no Laos, na China, no Camboja, em Myanmar ou no Vietname. É o milagre das águas que cruzam povos e viram nascer civilizações. Nas suas margens, seja na Ásia, na Europa ou na África, ergueram-se cidades poderosas. Pelas suas águas transferem-se mercadorias, pessoas e ideias e cruzam-se culturas. Nelas cresceram barragens que criam energia e que, hoje, fazem crescer a desconfiança entre povos, como se pode ver no Mekong. Mas isso não impede que continue a ser a semente da vida. Há alguns anos mergulhei em parte do seu mistério, percorrendo-o entre Can Tho e Chau Doc (no Vietname) e Phnom Penh (no Camboja). Não me senti como o capitão Willard de “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, em busca do coronel Kurtz, todos na fronteira da loucura. Há muito os americanos haviam perdido a guerra e também a sua lógica de superioridade tecnológica e militar. O Mekong explica porque a natureza vence sempre as certezas humanas. Nessas horas senti o temível poder desse rio que parece não ter fim. Nas suas margens o solo é rico, nas suas águas os barcos desvendam os segredos submersos. Os mercados flutuantes transbordam de fruta e as pessoas saltitam duns barcos para os outros, mostrando porque o comércio é tão fácil. O Mekong e os seus braços que correm para o oceano são a fonte da vida como recordava Marguerite Duras em “O Amante”. O delta do Mekong, que tinha nove braços (os “nove dragões” que o curso de água significa na designação vietnamita “Song Cuu Long”), representa 10 por cento da superfície do Vietname e produz 40 por cento do seu arroz. Transporta pessoas e dá-lhes de comer. É talvez uma espécie de divindade, território de deuses, espíritos, dragões e demónios. Para quem não o conhece o Mekong é um verdadeiro labirinto onde todos se podem perder para sempre. No Vietname, onde há talvez umas 20 variedades, comi muito provavelmente o arroz mais saboroso e aromático de que me recordo (embora o thai seja igualmente tentador). Afinal, na Tailândia, diz-se que cada grão de arroz tem uma alma e planta-se na estação das chuvas para “engravidar”. O arroz ajuda-nos a perceber muito desta parte do Sudoeste asiático, que foi poupada a muitas invasões que vieram das estepes da Ásia rumo à Índia ou à China, devido à dificuldade de ali se moverem exércitos, mesmo a cavalo. Assim às zonas de florestas e ilhas servidas pela riqueza do Mekong não chegaram as suas influências. Grandes Estados surgiram na zona, promovidos pela revolução da produção de arroz dos séculos IX a XIII, que assim puderam aumentar os seus raios de influência e de poder. Os reinos poderosos de Pagan em Myanmar e de Angkor no Camboja são apenas exemplos. Estes reinos produziram culturas fascinantes, com sistemas de alfabeto que hoje ainda são de difícil compreensão e poderosos símbolos arquitectónicos. A deslocação de povos para o sul, aproveitando a riqueza das águas férteis ajudou a expandir civilizações. O Mekong criou a vida e manteve-a. Nunca me libertei da sua energia viva. Vou guardá-la para sempre.

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