Eu referendo, tu referendas, mas eles que não me referendem

[Activo Estratégico]

Patrícia Silva Alves

Ao contrário do que se diz, perguntar ofende. Aliás, todos conhecemos o incómodo de ter de responder a perguntas certeiras, daquelas que tocam na ferida, que desarmam e expõem o que se tenta ocultar. Idealmente, ser jornalista é fazer isso: perguntar sobre o que se não se quer falar (se isso for relevante para uma melhor compreensão da realidade e permita que o cidadão fique mais esclarecido, é claro). Também o jornalista é exposto a isso. Quem se diz ao serviço do interesse público sujeita-se a ser questionado, criticado e, também, julgado. Faz parte.

E se custa ter de assumir algo que se quer esconder, há porém várias formas de lidar com a crítica, com o cepticismo e com o julgamento.

A Grécia, que em 1974 votou a favor da abolição da monarquia em referendo, prepara-se agora para ouvir a população sobre a nova proposta dos credores que agrava a receita da austeridade já condenada nas urnas.

Nos últimos meses, a afronta da Grécia perante os seus pares/credores do Eurogrupo de questionar o rumo das contrapartidas exigidas pelo dinheiro emprestado, gerou a crise que hoje lemos nas notícias vindas da Europa.

No entanto, a afronta da Grécia em perguntar se os seus cidadãos concordam com a receita europeia foi acolhida pelos outros países do euro como um autêntico terramoto.

Aliás, repare-se que a democracia no seu estado mais puro foi olhada pelos países europeus com mais escárnio do que as atrocidades que se cometeram (e se esquecem) em países como Angola ou China, ricos parceiros que convém não incomodar apesar de a democracia e todos quantos a defendam serem ali punidos a qualquer custo.

Perguntar incomoda. E muito. No entanto, apesar de toda a campanha e dramatização feitas pelos parceiros/credores europeus (veja-se a tentativa dos outros países europeus de colar o resultado do referendo a um “não” à Europa e não apenas à austeridade), não se questiona o direito de os gregos votarem num referendo. Questiona-se a pertinência da iniciativa, os efeitos políticos que dali vão surgir, mas não o referendo em si.

Aliás, os dirigentes europeus, percebendo que o referendo tem já eco mundial, em vez de o amaldiçoarem, alinharam no jogo.

Atente-se, por exemplo, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia: “Peço ao povo grego que vote sim no referendo do próximo domingo. Votem sim para ficar no euro. Digo-vos, não devem cometer suicídio por ter medo da morte”, afirmou há poucos dias.

O que vemos aqui não é uma condenação, é um apelo, sendo que a ideia base – e inabalável – é: os gregos têm o direito de votar, de questionar as decisões tomadas pelos países da Zona Euro.

Agora um salto até Macau e podemos ver a forma como uma outra pergunta, a colocada pelo tão polémico referendo civil, foi tratada pelo Governo local. A iniciativa que não era, de todo, comparável a um verdadeiro referendo pois nunca seria vinculativa e era, na realidade, uma simples sondagem de opinião, foi amordaçada à partida.

A iniciativa – legal – de ouvir a população quanto ao método de escolha do Chefe do Executivo de Macau foi declarada ilegal. Num atropelo à Lei Básica uma iniciativa legal foi considerada ilegal porque não era conveniente. Porque questionava o poder instalado, porque incomodava.

Perguntar ofende, já o vimos, mas a resposta do Governo da RAEM não foi, de todo, semelhante à dos países europeus. É que apesar de toda a sua prepotência, eles respeitam – contrariados, como se vê – o direito de os gregos os questionarem, de se expressarem, de pensarem. Em Macau, a liberdade de expressão foi negada. A mensagem que passou foi que questionar não só ofende, como não deve acontecer. E eu pergunto: onde está o segundo sistema?

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