O paradigma do tribalismo 

Dinâmicas e contextos da pós-transição

Carlos Piteira

Esta mania de, volta não volta, retomar o tema dos macaenses, transparece em alguns aspectos os sintomas da ligação a uma concepção modelar, que se vai afirmando aos poucos no domínio das ciências sociais em geral e no da antropologia em particular, como sendo o paradigma tribal, um tipo de análise que se apoderou da configuração da herança dos nossos ancestrais que tiveram a ideia de se constituir em “tribos” como primeira forma electiva de uma afirmação identitária e de pertença de um colectivo.

A permanente busca de traços e elementos que possam configurar a singularidade de um grupo é sem dúvida intrínseco à própria natureza humana, mesmo que vivamos num tempo onde o individual tenda a superar o colectivo, ela faz parte do nosso processo evolutivo enquanto espécie.

Sem essa configuração trazida pelos nossos ancestrais caçadores-recolectores provavelmente não teríamos tido o nosso primeiro estádio evolutivo enquanto comunidade culturalmente assumida.

Essa necessidade permanece em todos nós enquanto modelo de organização social, obviamente, não nos moldes da pré-história mas adaptados aos contextos das sociedades actuais. A necessidade que todos temos de pertencer a algo que nos é próximo, continua a prevalecer, fomos apenas reinventando as “tribos” dos tempos modernos.

A expressão que hoje ainda perdura relativamente às chamadas comunidades étnicas e aos grupos de pertença é, sem dúvida, o espelho desta perpetuação no tempo e da possibilidade de afirmação de um paradigma tribal, onde o elemento estruturante continua a ser o sentimento de pertença.

Os macaenses não fogem à regra são também eles espelho dessa marca identitária que marca hoje as denominadas “tribos” modernas, quer pela perpetuação da sua herança no tempo e no espaço, quer pela manutenção e reinvenção dos seus traços identitários, isto a propósito de algumas situações que vão salpicando o nosso quotidiano quer aqui em Lisboa quer aí em Macau, obviamente.

Alguns elementos estruturantes da sua marca distintiva vão conhecendo, nos últimos tempos, algumas renovações e reinvenções à medida que a necessidade os obriga. Traços aparentemente apagados no tempo começam de novo a surgir renovados e reforçados, falo do “patuá” enquanto possibilidade de produção literária e, quem sabe, recuperando a tradição poética que possa permitir uma nova sonoridade na expressão musical, de uma gastronomia que se afirma e se alicerça como única mas replicável em contextos de difusão e experimentação culinária e enquadrada num espaço turístico, do reforço da expressão das diásporas em segmentos específicos mas unificados pelo retorno às raízes da sua história e por ultimo da capacidade, se bem que ainda muito embrionária, de fazer emergir uma nova geração que quer reclamar a continuidade dos seus antepassados.

O registo que aqui deixo pode parecer um pouco esforçado, ou até talvez ilusório, mas é também a expressão das reminiscências de um passado que habita em todos nós, ao optarmos por projectar o nosso “Eu” na crença de um colectivo que passamos a designar por “Nós” e ao qual passámos a pertencer por sentimento e adesão voluntária, do mesmo modo que os nossos antepassados foram também alicerçando e construindo a sua identidade tribal.

Num mundo onde somos invadidos pelas tecnologias, pelos ecrãs, pelo virtual e pelo imediato é bom saber que afinal também podemos viver e pertencer a uma “tribo” de pessoas que connosco comunga um colectivo. Ser macaense hoje passa também por assumir este paradigma.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s