A notícia e a mentira

PODE IR À SUA VIDA

Sandra Lobo Pimentel

Macau teve o dom de me ensinar, exercendo aqui a profissão de jornalista, que há zonas cinzentas no dia-a-dia desta sociedade em que tudo parece valer. A chamada “opinião pública”, e falo, apenas, nos falantes de português, porque não tenho acesso a outra, vive em plena liberdade de expressão e, muitas vezes, como é próprio das liberdades, esta é excedida largamente.

Há profissões que não nos permitem viver dentro de gabinetes ou ser apenas escrutinados pelos nossos superiores. Verdade. A escolha é nossa. Sim. Mas o bom senso e o respeito não têm por que não imperar mesmo quando existe exposição daquilo que fazemos diariamente.

Profissões como a nossa, de jornalista, implicam uma exposição pública que não se resume ao trabalho que fazemos todos os dias. Antes fosse. Se tal se mostrasse possível, nada mais justo.

Mas, ainda por cima, em terra pequena como esta, não há como evitar que a nossa cara e o nosso nome andem por aí na boca de tantos, muitas vezes para proferirem os maiores despautérios a nosso respeito. Sim. A nosso. Não ao nosso trabalho.

Quando tal acontece, há uma de duas hipóteses: ou o conteúdo do que escrevemos, falamos ou mostramos, os envolve de alguma forma, ou então são apenas comentadores profissionais.

Não me interpretem mal. O leitor, o ouvinte e o telespectador têm todo o direito de escrutinar o trabalho jornalístico que se faz. Eu também ocupo esse lugar e faço-o em pleno direito. E muitas vezes.

A questão é outra. É preciso saber separar o trabalho do autor. Mas não há nada mais fácil do que navegar a maré do insulto e da falta de respeito. Difícil mesmo é criticar o trabalho, apresentar pontos de vista, sem resvalar para o adjectivo fácil, pessoalizando algo que não deve aliás, não poderia jamais – ser pessoalizado.

E não vale a pena dizer o que não está escrito, o que não foi dito ou mostrado. Quem lê, ouve e vê, sabe tirar as suas conclusões. A acusação de manipulação normalmente surge de quem, afinal, tem vontade de manipular o que “sai cá para fora”.

Porventura, será difícil entender que o que é notícia ou não é notícia não esteja dependente do critério de quem é afectado pela exposição de certas informações. Certo ou errado, o critério é primeiro nosso, depois dos nossos editores. Pode haver erros de percepção? Pode. Cá estaremos para os assumir.

No entanto, mesmo que não se goste, não se atira para a lama o trabalho de alguém só porque a “notícia” não deu jeito. No jornalismo não devia haver “jeitos” ou “circunstâncias favoráveis”. Quem tem o poder de publicar e escolhe ignorar, viverá com essa escolha. Quem tem o mesmo poder e escolhe dar a notícia, ainda que isso incomode, pois que terá que viver com isso também.

No fim façamos as contas. Se ficou escrita alguma mentira, que seja então assumida e rectificada. Se não foi, então é “apenas” uma verdade que incomodou alguém.

A isso tenho visto ser chamado de jornalismo. Que as forças de uma terra pequena e da liberdade do despautério e do insulto não façam dele uma espécie em vias de extinção.

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