Falar a sério

Activo Estratégico

Patrícia Silva Alves

Sabe, mas não diz. Consente porque sabe que fazer o contrário poderá comprometer o seu futuro. Ou é chato. Traz aborrecimentos e isto é tudo tão pequeno. Fala baixo porque os outros podem ouvir e não aponta o dedo quando deve. Se alguém de quem se precisa diz que o carro é vermelho quando na realidade é verde, dirá: “Pois claro que é vermelho!”.

Está em Macau, terra de cofres recheados, e sabe que esses cofres podem esvaziar-se porque a riqueza é dependente do humor dos jogadores ou de Pequim. Nada é certo. Porque não sabe firmemente se Macau vai continuar assim – com o mesmo dinheiro a vir do mesmo lugar. Que virá muito dinheiro, isso sabe. Só não sabe de onde. Nas últimas décadas (séculos?) houve sempre quem achasse em Macau a sua arca de tesouro. Mas um tesouro é isso mesmo – um acaso feliz. O dinheiro vem – muito – mas pode acabar.

Depois também há aquele que só pensa no momento. Investe no momento. Constrói no momento. Sabe que o lucro é garantido enquanto a maré está de feição. Por isso, se o que faz prejudica todos os outros, polui o horizonte ou arrasa montanhas, pouco importa. O momento em que o tesouro entra no bolso é que importa. E esse momento é agora. E isso é o que importa.

Enquanto tudo isto acontece, há um jogo em que se entra quando se vive cá. Um “eu sei que tu sabes que eu sei” explícito no silêncio. Talvez seja isso a que algumas pessoas chamam de “conhecer Macau”. É ler as entrelinhas. Macau sempre foi a zona cinzenta – é Portugal ou a China? É Macau ou Pequim? É controlada por quem? Macau é também uma zona de alianças, de pactos, de compromissos. São eles que parecem ser verdadeiramente a coluna vertebral desta terra. Por isso, é preciso conhecer o real balanço do poder que gere uma terra onde as palavras são ocas, mas os cérebros fervilham. Porque uma arca do tesouro alimenta projectos, sonhos legítimos (e outros nem tanto), ideias que têm por base interesses egoístas e outros que são projectos solidários. São iniciativas que lavam, até certo ponto, tudo o que parece estar sujo. Que criam o bom, o belo, o necessário a partir de uma fonte que não se qual é. De onde vem o dinheiro? Fazer perguntas é aborrecido. É não conhecer Macau.

Quando o jornalista Adelino Gomes veio cá em Março recordou uma constatação que fez na sua cobertura do dia 25 de Abril de 1974, quando assistia na rua ao que ainda não se sabia bem o que era: “Pela primeira vez na minha vida como repórter de rádio estou a ouvir as pessoas a falar a sério…sem peias”, disse o repórter.

Como seria em Macau se todos falássemos a sério?

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