Os solipsistas

 

Marco Carvalho

Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Não é ainda o caso de Macau, mas num mundo dado a incertezas – umas mais indefinidas que outras – nada há que garanta que não o venha a ser. O desempenho irrefreável do sector do jogo ao longo da última década dotou o erário público de uma almofada financeira aparentemente confortável e o facto da contracção das receitas dos casinos ainda não ter dado azo a uma indisposição do sistema (a taxa de desemprego mantém-se intocada, o superavit continua a fazer inveja e, por estes lados, dívida é palavra que não assusta) ajudam a manter um certo clima de optimismo face ao que de outra forma se prefiguraria como uma sanguinária hecatombe. Um país com uma economia de traços mais realistas, onde o desemprego obriga a contas e a sustentabilidade do sistema de segurança social instila pesadelos, estaria por esta altura mergulhado nas labaredas do inferno, a bater à porta dos piores demónios da finança se o seu Produto Interno Bruto tivesse encolhido em um quarto no período de menos de um ano.

Em Macau, graças a uma economia de conto de fadas, foi como se nada fosse. Embalados pelos números extraordinários movimentados pelos casinos ao longo dos últimos anos, governantes, agentes económicos e analistas não se convencem que Pequim esteja verdadeiramente interessada em estrangular a galinha dos ovos de ouro, mesmo que se afigure como cada vez mais transparente que Xi Jinping não morre de amores pelo jogo. Da parte das concessionárias, o discurso oficial é de alguma contenção, mas ainda assim de um optimismo, que à luz das actuais circunstâncias, se afigura desmesurado: não há quem não acredite que o regresso ao tempo das vacas gordas não esteja ao virar da esquina.

A arte da projecção económica é, em Macau, marcada por um certo solipsismo, pela crença extremista e cega de que, além de nós, só existem as nossas experiências. Ao longo de uma frenética década, o território foi como que o paraíso para avaros e insaciáveis, um daqueles locais raros – no espaço e no tempo – em que se gerou, movimentou e perdeu dinheiro a uma escala ciclópica. Esta continua, no entanto, a ser a única perspectiva possível de crescimento para quem dá as cartas e para quem mais contribui para a definição do pulsar macroeconómico do território. Habituadas a fazer muito dinheiro em pouco tempo, as operadoras de jogo foram obrigadas a redefinir estratégias e a reposicionar-se face à nova realidade do sector, mas nem por isso abriram mão da perspectiva de rentabilizar ao máximo o investimento feito no mais curto espaço de tempo possível. Uma breve incursão pelas mais recentes valências do Cotai deixa perceber que o pressuposto de diversificação sugerido pelo Governo é centralizado num público-alvo bem definido: luxuosos, os hotéis não são para todas as carteiras. Vastos e luminosos, os centros comerciais estão repletos de lojas que não falam a todos os bolsos.

Se o solipsismo se ficar pelas perspectivas dos agentes económicos privados, o equívoco tarde ou cedo se retratará e irá obrigar as concessionárias de jogo a rever o seu posicionamento face ao mercado. Se, como tudo indica, continuar a ser partilhado pelo Governo, a tranquilidade que aparentemente reina na Região Administrativa Especial deverá, incontornavelmente, ser afectada. Durante a extensa década que intermediou entre a abertura do casino Sands, em 2004 e o Verão do ano passado, os ganhos mitigaram os problemas e ajudaram a construir um sucedâneo de coesão social que mascarou os problemas existentes, adiou a necessária discussão dos desafios com que o território se deparava e protelou a imperatividade de se equacionarem soluções.

O universo das relações de trabalho contribui com o exemplo perfeito. Durante a última década, com pão, trabalho e dinheiro em abastança, com o simpático espectro do pleno emprego a atestar a robustez da economia do território, poucos foram os que sentiram urgência em olhar com olhos de ver para a desigualdade circunstancial de termos com que se processa o diálogo entre Governo, empregados e empregadores. Em Macau, a concertação social é uma mesa de bilhar inclinada que pende deliberadamente para o patronato: os interesses dos trabalhadores saem diminuídos pela inexistência de mecanismos de negociação colectiva e pela inexistência de uma quadratura teórica que olhe para as práticas laborais como uma parte estruturante da coesão social e não como um mecanismo inflexível de estruturação social. A ausência de um tal quadro teórico desumaniza a própria ideia de trabalho: subtrai à maternidade a importância fulcral que ela tem, reduz a paternidade a uma circunstância biológica e – mais grave – transforma os trabalhadores em colaterais descartáveis quando a matemática dos recursos se complica. O cortejo da crise ainda vai no adro e já a procissão desaguou por várias vezes no calvário do Gabinete de Ligação.

Imagine-se, por uma sórdida fracção de segundo, que Macau é apanhada no âmago da tempestade perfeita: que o vírus aureolado do momento entre à socapa de ferry ou de avião e encontra num dos novos e gigantescos empreendimentos do Cotai terreno fértil onde se propagar. Já debilitados pelas circunstâncias dos últimos meses, os casinos esvaziar-se-iam mais ainda e se a ameaça perdurasse a manutenção do status quo tornar-se-ia impossível e o resto seria fácil de equacionar: despedimentos, protestos de rua, instabilidade e a tal coesão social, que se pensava que existia, feita em estilhaços.

Os tempos que se vivem convidam à reflexão séria e a uma ordem de ideias que não se esgote em premissas vagas de diversificação económica e de cooperação regional. Os tempos que se vivem deveriam exigir um maior respeito por todos quantos ajudaram a alçar Macau ao patamar de deslumbramento onde se encontra. Nos tempos que se vivem, os deputados da Assembleia Legislativa vão voltar esta tarde a ouvir falar em Lei Sindical e, como bons solipsistas, vão assobiar para o lado.

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