Herbie & Chick e a reinvenção luso-tropical

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Isadora Ataíde

Herbie Hancock, 75 anos, é negro e de Illinois. Chick Corea, 74 anos completados hoje, é branco e de Massachussets. Herbie usa uns fatos bem engomados, os seus sapatos formais brilham de polimento e os seus óculos sugerem um académico traquilo. Chick veste jeans e t-shirt amarela, usa umas sapatilhas de corrida e tem um corte de cabelo que recordam uma estrela de rock. No piano, Herbie parece controlar todos os seus movimentos, enquanto Chick dá ideia de que irá perder o controlo do teclado.

Génios musicais. Inúmeras vezes premiados e reconhecidos pelo público de distintas paragens, Herbie e Chick puseram Macau a cantar numa única voz. Depois de hora e meia a partilharem o palco, o piano e a paixão, Chick e Herbie deram o tom à plateia. Pessoas de todas as cores e origens, nascidas em lugares distintos, com nacionalidades desconhecidas, com diferentes habilitações e títulos de identificação, com graus de riqueza variados, cantaram em sintonia e foram felizes.

A música de Herbie e Chick, partilhada e cantada com centenas de desconhecidos, deixou as caras estampadas de felicidade, aquela felicidade real que invade, e não a prometida, que há-de chegar. Talvez o entendimento e a harmonia que provêm da música sejam o antídoto e a cura para o que nos separa, como ensinaram Edward Said e Daniel Barenboim com a sua West-Eastern orquestra, que continua a encantar.

Era frequente nas colónias atlânticas de África, ao longo do século XIX e não só, as mulheres regressarem à metrópole para parir. Embora a legislação não diferenciasse os portugueses por local de nascimento, nascer na metrópole, depois de 1825, passou a ter um estatuto privilegiado.

Os brasileiros apareceram quando conquistaram a sua independência, em 1822. Mas foi em 1825 – quando os reinos acordaram que os territórios africanos de Angola, Moçambique e Cabo Verde (nos quais as lideranças luso-africanas cogitaram unir-se ao Brasil) ficavam com Portugal – que nasceram os brasileiros. Antes disso, eram todos portugueses e felizes.

Ao longo do século XIX, os portugueses eram os que nasciam nos territórios coloniais de Portugal… Na viragem do século, diferenciou-se os indígenas dos portugueses, durante a República inventou-se o estatuto do assimilado – só eram portugueses os africanos que falavam a língua e eram civilizados.

Foi na década de 1950 que o Estado Novo adoptou o luso-tropicalismo como ideologia oficial. Os elementos que fundamentavam o conceito de luso-tropicalismo do sociólogo Gilberto Freyre – miscigenação, fusão cultural e ausência de discriminação racial – foram apropriados pelo regime de Salazar, que os identificava com a missão civilizadora “que há séculos Portugal desenvolvia nos seus territórios além-mar”. Porém, só depois de 1962, todos os africanos nascidos nas províncias ultramarinas passaram a ser portugueses.

As nações e as nacionalidades são uma contingência da modernidade. Em Portugal e no mundo, entre os que são portugueses não há gradações ou diferenciações. Os portugueses o são, ponto. A apologia do sotaque supostamente “doce” dos portugueses do Brasil ou do acento dos portugueses brancos de África, “que falam à preto”, são uma reinvenção descuidada do discurso luso-tropical. Nada se ouve dos sotaques, sensualidade ou génio dos portugueses negros da Guiné ou dos portugueses asiáticos de Timor.

Os portugueses poderiam ser cidadãos do mundo, se este fosse um tempo e um mundo de cidadãos. Se nos tempos de hoje, ainda mais conservadores do que os discursos autoritários do Estado Novo, não se quisesse diferenciar os portugueses e os homens.

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