Paz Interior e Exterior

Ana Cristina Alves

Professora convidada do Departamento de Português da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de Macau

Fiquei muito surpreendida pelo facto de cerca de 49% dos jovens da Escola Portuguesa já terem experimentado substâncias tóxicas, nomeadamente anfetaminas e afins. Dizem os entendidos que é pura diversão juvenil, mas a mim parece-me algo bastante diferente. Cheira-me a pressão e a competição, porque no mundo de hoje é preciso tirar boas notas para se acalentarem os sonhos próprios e alheios de se “vir a ser alguém”.

Falta paz interior a estes jovens, e tal reflecte-se num determinado comportamento exterior.

Também à Europa falta paz interior, como já tinha intuído e pude confirmar por alguma leitura realizada em torno de Portugal na Queda da Europa, obra redigida por um ilustre filósofo político, Professor Viriato Soromenho-Marques. À Europa falta uma visão adequada dos problemas que apenas se consegue cultivando muita paz interior e exterior. Os políticos poderão começar por efectuar um exercício intensivo e extensivo de se colocarem no lugar do Outro, neste caso dos vários outros dos países mais desfavorecidos da União Europeia.

Diz-nos Soromenho-Marques em jeito de conclusão da sua longa reflexão: “ A Europa precisa de uma conferência de paz e reconciliação, realizada com espírito prudencial e preventivo, antes de o curso dos acontecimentos a tornar numa dolorosa necessidade” (2014: 367)

Também a China precisa de cultivar o seu antigo ideal de paz que o cavalheiro (君子) conseguia através dum comportamento modelar, como recorda Wang Keping em Ethos of Chinese Culture, ao citar o ideal confucionista de governante, pormenorizadamente descrito em O Grande Estudo (《大學》), um dos clássicos confucionistas mais estudados ao longo da tradição chinesa.

Diz-nos Wang Keping que o ideal cosmopolita chinês se resumia em quatro ideias-chave xiu (修), qi (齊), zhi (智), ping (平), ou seja, o verdadeiro homem de estado devia cuidar da sua formação moral (修) e do seu saber (智), “ regular a família, governar bem o Estado (齊), e manter o mundo em paz(平)[1].” (2007:18)

Recordemos a famosa passagem de O Grande Estudo: “ Governando correctamente os seus estados, todo o reino vivia em paz e em união.” (人’壹是’皆以條為本。下平自天子’以至於庶。) (1960:359)

Mas para que reinasse a paz e a harmonia era necessário que o cavalheiro destinado a ser governante pacificasse o seu interior. Procedesse a um longo percurso, que começava no cultivo da virtude em si mesmo, através da prática da sinceridade para rectificação da mente e terminava no estado, passando pela organização da família. A virtude também poderia ser desenvolvida por meio de um grande estudo, daí a importância do conhecimento, mas na base deste encontrava-se a sustentá-lo a conduta moral. Quando o coração e a personalidade do governante estivessem em ordem e totalmente pacificadas, então haveria paz na família e no reino.

A ética e a política andaram sempre de mãos dadas na China e não apenas na filosofia confucionista. Também para os taoístas, por exemplo para Laozi (老子) o sábio, ou melhor, o santo (聖人) tem a possibilidade, através da sua conduta, de modelar a realidade que o rodeia por meio da adopção de uma atitude sincera e verdadeira.

Recorde-se então a primeira parte do capítulo 35 do Clássico da Via e da Virtude (《道德經》)

Trinta e Cinco

Agarra a Grande Forma

Deixa o mundo acontecer.

Não há mal que possa vir,

da grande Paz ver surgir.

三十五

執大象

天下往

往而不害

安平泰

A Paz exterior cultiva-se nas escolas e nos estados, nos países ou até nas comunidades de países como a União Europeia. Mas para que ela possa surgir é necessário uma mudança radical, um cultivar de uma paz interior que só é possível depois de se ter agarrado a Grande Forma, o Tao (道), ou o Caminho certo, aquele que nos convém e que facultará surgimento da atitude mais adequada, a única que serve ao nosso coração. E embora cada pessoa tenha a sua maneira própria e insubstituível de cultivar a paz interior, a paz exterior só será alcançável após um longo e silencioso trabalho sobre nós mesmos, que é imprescindível efectuar para que as nossas crianças compreendam que o mais importante não são as notas, nem a pressão a que estão submetidas, mas o modo saudável como possam crescer e se desenvolver, isto é, de uma forma pacífica e equilibrada; ou ainda para que aqueles que nós elegemos como representantes se possam sentar à mesa das várias conferências que poderão conduzir à paz exterior e ao bem-estar dos estados, muitos deles unidos na melhor das fés.

 

Bibliografia

 

Abreu, António Graça de. 2013. Tao Te Ching. Livro da Via e da Virtude. 《道德经》, Edição Bilingue.Lisboa: Vega

Legge, James. 1960. The Chinese Classics. Vol. I, The Great Learning 《大學》 Hong Kong: Hong Kong University Press

Ribeiro, Cláudia. 2004. Dao De Jing. O Livro da Via e do Poder. 《道德經》Edição Bilingue. Mem Martins: Publicações Europa-América

Soromenho-Marques, Viriato. 2014. Portugal na Queda da Europa. Lisboa: Círculo dos Leitores

Wang Keping. 2007. Ethos of Chinese Culture. Beijing: Foreign Languages Press

[1] Parêntesis nossos.

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