Educação e recessão económica em união de facto

TERRITÓRIO DA LÍNGUA

Ana Paula Dias, Doutoranda na Universidade Aberta

Foram apresentados em maio último, no Fórum Mundial de Educação, na Coreia do Sul, os resultados dos testes PISA, TIMSS (dos EUA) e TERCE (da América Latina), relativos à matemática e às ciências, aplicados em 76 países. A novidade é que o ranking resultante da análise destes resultados colocou países desenvolvidos e países em desenvolvimento numa única escala, permitindo que mais países, quer ricos quer pobres, se possam comparar aos líderes da educação mundial, analisar os seus pontos fortes e fracos e atentar nos ganhos económicos a longo prazo que poderão obter através da melhoria da qualidade no ensino.

São asiáticos os países que se encontram nos primeiros lugares do ranking e africanos os países no final da tabela: Singapura, Hong Kong, Coreia do Sul, Taiwan e Japão nos cinco primeiros lugares. No final da lista, Omã, Marrocos, Honduras, África do Sul e Gana. Entre os 76 países avaliados, somente dois lusófonos integram o ranking: Portugal ocupa a 30ª posição e o Brasil, a 60ª. Entre os países europeus que atingiram lugares mais elevados está o Reino Unido, em 20º lugar. Alguns dados podem surpreender, como o facto de os EUA se encontrarem em 28º e o Vietname em 12º. Também se destaca o declínio da Suécia, com a OCDE a advertir que existem problemas sérios no seu sistema educativo.

Singapura, que atualmente ocupa a primeira posição, já registou elevados níveis de analfabetismo nos anos 60 do século XX, um exemplo de que, com medidas adequadas, o progresso educativo é possível em pouco tempo. Constata-se que nos países que lideram o ranking a valorização do ensino tem grande peso na cultura. Pais e avós chineses, por exemplo, costumam investir as suas poupanças na educação de filhos e netos. Aliado a isso está outra ideia difundida nestes países, de que todas as crianças podem alcançar um bom nível educativo, independentemente da origem familiar. Acresce que investem na contratação de professores qualificados e que a profissão é altamente valorizada.

Um relatório conjunto da OCDE e do Banco Mundial (Universal Basic Skills – What Countries Stand to Gain, elaborado por Eric Hanushek, da Universidade de Stanford e Ludger Woessmann, da Universidade de Munique) argumenta que os índices de educação de um país servem como indicador dos ganhos económicos que a nação pode ter a longo prazo e que políticas e práticas educativas deficientes deixam muitos países num permanente estado de recessão económica. Segundo o documento, as falhas no sistema educativo de um país implicam não apenas oportunidades perdidas para milhares de adolescentes, mas também impactam a economia de um país inteiro. No Reino Unido, por exemplo, o estudo mostra que cerca de um em cada cinco jovens abandonam a escola sem atingir um nível básico de educação – e a OCDE diz que reduzir esse número e melhorar as qualificações poderia adicionar triliões de dólares à economia do Reino Unido. O estudo ressalva, no entanto, que a educação universal e obrigatória é apenas um primeiro passo: atingir o nível básico de matemática e ciências é fundamental como base para uma aprendizagem mais profunda.

O mesmo estudo mostra uma relação negativa entre o dinheiro que os países ganham a partir dos seus recursos naturais e as competências dos seus estudantes, o que, num planeta de recursos finitos, tem a sua lógica. Ou seja: países que têm poucos recursos naturais costumam investir mais no capital de conhecimento. Prova disto é o desempenho dos Estados Unidos: cerca de 25% dos alunos de 15 anos do país não completaram com êxito o nível básico do PISA em matemática e ciências. Assim, a maior potência do mundo ficou abaixo de países como o Vietname no ranking.

Em Macau tem-se falado muito ultimamente sobre a queda das receitas do setor do jogo e de como essa descida vai influenciar negativamente o Produto Interno Bruto de Macau, cuja a elevada dependência das receitas dos casinos é conhecida. Não seria agora uma excelente ocasião para olhar para estes estudos, para os exemplos de países próximos como Singapura ou Taiwan e investir a sério na educação, de forma sustentada e planificada? Como referem os autores do estudo citado, cada centavo gasto para melhorar a qualidade do ensino nas salas de aula (não basta aumentar o acesso, ter apoios, ter subsídios) terá reflexo no crescimento do PIB dos países a longo prazo. E o estudo quantifica isto em números…

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