Com que linhas se cosem

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA

Catarina Mesquita

Na passada semana, uma mala da marca de luxo francesa Hermès estabeleceu um novo recorde para a mala mais cara alguma vez vendida em leilão.

A mala, em pele de crocodilo com um fecho em ouro branco de 18 quilates e diamantes incrustados, foi vendida a um licitante de Hong Kong que fez a sua oferta por telefone no valor de 1,7 milhões de dólares de Hong Kong.

No mesmo leilão, em oito horas, foram arrecadados cerca de 43 milhões dólares de Hong Kong só na venda de 366 malas, sendo que as 10 maiores ofertas foram feitas por licitantes asiáticos.

Na mesma Ásia onde estão os maiores compradores de malas de luxo estão as fábricas onde estas são produzidas e não só… tudo o resto também.

Marcas como a Zara e outras do grupo espanhol Inditex têm as suas etiquetas assinadas por países asiáticos: Bangladesh, Tailândia, Índia,…

Lembro-me de ler a resposta do director da Zara há uns meses, quando questionado numa entrevista, sobre o porquê de as fábricas do grupo espanhol estarem sediadas em países asiáticos: “Os espanhóis não querem trabalhar”. Cinco palavras para explicar uma decisão que levou à queda de 90 por cento, nos últimos anos, da indústria têxtil espanhola.

Os espanhóis, na generalidade, até podem ter menos capacidade de conseguir aguentar 16 horas de trabalho numa fábrica mas não se trata só disso: os espanhóis não se prestariam a trabalhar por 9 cêntimos à hora.

Na Internet correm por estes dias também imagens do activista paquistanês Ehsan Ullah Khan que declara que “100 por cento da produção da Zara é trabalho infantil”.

O activista explica que com o dinheiro das peças compradas, as marcas “adquirem” mais crianças, que se tornam escravas para produzirem em massa as roupas que usamos na rua.

Estima-se que cerca de 168 milhões de crianças em todo o mundo trabalhem em fábricas, minas, na agricultura ou até em campos de batalha, estando privadas de bens-essenciais.

É um murro no estômago pensarmos que alimentamos um sistema de desigualdades como este em que, sugados pela máquina do marketing, somos obrigados a consumir e a sentir necessidade de ter aquilo que nos aparece à frente dos olhos em grandes cartazes publicitários.

A marca de roupa H&M abre esta semana a primeira loja no Venetian e a segunda já se prepara também para abrir portas na nova torre do Galaxy, também ela com fábricas sediadas na Ásia, cujo perfil dos empregados se imagina como seja.

A cada esquina deste Macau vemos lojas de luxo a nascerem como cogumelos enquanto os pequenos criadores locais tentam sobreviver à democratização que nos faz andar todos vestidos da mesma maneira.

Todos queremos ter os sapatos da moda, as senhoras as malas das marcas mais icónicas mesmo que estas sejam vendidas em salinhas escondidas nos pisos subterrâneos de Zhuhai, sem nunca pensarmos como é que estas foram produzidas para que sejam tão baratas.

Estamos cada vez mais iguais nos modelos que usamos em cada estação. Os padrões e as cores que escolhemos tentam realçar-nos a cor dos olhos e nunca paramos para pensar nos olhos de quem coseu as linhas que juntam esses tecidos.

Não deixa de ser lamentável que se continue a dar espaço a que as grandes marcas abram mais e mais portas, enchendo os espaços de rendas chorudas com produtos comprados a preço de luxo e pagos aos produtores com trocos de miséria.

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