Eça e o Oriente

O OUVIDOR OCIDENTAL

Fernando Sobral

Eça de Queiroz nunca esteve no Japão ou na China mas isso não o impediu de escrever “O Mandarim” ou a crónica “Os chineses e japoneses” que publicou na “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro em Dezembro de 1894. O aparente objectivo do escritor era dissertar sobre a guerra entre China e Japão por causa da Coreia. Mas o alvo era outro, como acontecia muitas vezes na sua prosa elegante e mordaz: a decadência europeia, vista à luz de um exotismo distante. Queiroz, que fora cônsul em Havana cerca de duas décadas antes, conhecia os chineses da forte emigração destes para terras americanas, onde foram a mão-de-obra preferencial para estender as veias que traziam sangue à nova América, as linhas de caminho-de-ferro. Não admira que, na crónica, elogie as qualidades dos trabalhadores chineses, iluminando algo que se tornaria mais visível nos recentes anos da globalização, quando muita da produção industrial rumou ao Oriente, a começar pela China. Escrevia o autor português: “Um imigrante com estas capacidades é terrível, sobretudo em países industriais, porque altera profundamente a balança dos salários. O capital produtor tem o sonho ansioso (e legítimo) de diminuir, pela baixa dos salários, as despesas de produção. (…) Foi o que aconteceu na Califórnia. O celestial começou lentamente a expulsar o yankee de toda a actividade assalariada”. Queiroz surge, no texto, como um severo crítico da política da canhoneira dos ingleses durante a Guerra do Ópio, que abriu os portos chineses aos interesses comerciais ocidentais e impôs Hong Kong como plataforma giratória para os interesses ingleses na região. Lamentava ainda a destruição dos arquivos históricos do Palácio de Verão de Pequim.

Não deixa de ser curioso como Eça de Queiroz consegue antecipar muito do que hoje se discute sobre o novo mundo que a globalização económica e financeira, à boleia da tecnologia, criou. Um mapa de relações económicas e culturais que poderia ter sido diferente se o almirante chinês Zhang He tivesse dobrado o Cabo das Tormentas em meados do século XV e tivesse chegado ao Ocidente antes de Vasco da Gama ter aportado a terras da Índia. Mas os Ming optaram pelo isolamento comercial e pela destruição da sua frota naval. A história faz-se de oportunidades e decisões rápidas e na altura o inimigo externo da corte chinesa eram as tribos mongóis a norte. E foi para aí que a sua atenção estava virada. Seja como for, é interessante ver como Portugal é hoje o maior pólo do investimento chinês na Europa (que brevemente deverá ser alargado no sector financeiro), mostrando como tudo o que sobe cai e vice-versa. Na física e na vida das pessoas e das civilizações. O maior reflexo do que acontece no mundo está nas estações que se sucedem: Primavera, Verão, Outono, Inverno. Até voltar tudo ao início, num equilíbrio nem sempre perfeito. Mas tendencial, como a memória filosófica oriental sempre ensinou aos ocidentais mais distraídos e rendidos às leis da ciência. Talvez por isso reler Eça de Queiroz a esta luz da nova globalização é mais actual do que possa parecer.

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