Bo Bo e os factos sociais

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Isadora Ataíde

A vida de uma vaca americana, nascida e criada com a função exclusiva de servir de alimento ao homem, tem um significado limitado. Diferente de uma vaca leiteira neozelandesa, criada ao ar-livre e a alimentar-se em pastos orgânicos, que procria e cria os seus próprios bezerros. Porém, nada se compara, a uma vaca indiana. De manhã bem cedo, a vaca banha-se no Ganges na expectativa de cumprir o seu ciclo terrestre e não voltar a reencarnar. Nos fins de tarde, nas escadas de Varanasi, olha para o céu e conta as estrelas.

Outro exemplo são os rinocerontes. Os asiáticos, estão praticamente extintos. Os rinocerontes cambojanos já tinham desaparecido no final do século XIX, depois de durante séculos terem sido caçados para a obtenção do chifre, que os Khmers comercializavam com o Vietname e a China. Já um rino moçambicano, que nasceu livre na savana, passa a vida apreensivo, a espreitar se não é perseguido pelos caçadores furtivos, que já são tantos que não se escondem. Contudo, um rino nascido no Kruger, a grande reserva sul-africana, em geral tem uma vida longa. Caminha centenas de quilómetros por desporto e não para encontrar água. Tem erva o ano inteiro, ainda que tenha de se mudar ao longo do ano, e em geral constitui família.

Animais e natureza foram completamente instrumentalizados pelo homem. Daí que o conceito de “facto social” – tendo como características principais, na perspectiva de Durkheim, ser ‘externo’, ‘constringente’ e ‘geral’ – seja hoje determinante na origem, no processo e no destino dos animais.

Bo Bo que o diga. Ainda bebé, o urso negro asiático que vive na Flora, foi trazido enjaulado para Macau. Colocado para engorda, Bo Bo estava em exibição na porta de um restaurante na Rua da Felicidade quando foi descoberto e resgatado com grande alarido por jornalistas locais. Ou seja, o facto de ter sido capturado e depois resgatado foi “externo” a Bo Bo, independente da sua vontade e do seu interesse.

Um rés-do-chão no Jardim da Flora foi o que se encontrou para o urso, hoje com cerca de 30 anos. Uma toca impenetrável, um campo de pedra, um balanço improvisado e um canal minúsculo e meio vazio, no qual a água bate no seu tornozelo, tem sido a vida de Bo Bo nas últimas décadas.

Ninguém conhece o seu estado de espírito, mas parece cada vez mais deprimido. Sem relações com os da sua espécie e com um público escasso, o urso não sai de casa e dorme muitas horas. O calor e a humidade também o deixam exaurido, sofre do coração e sente falta do Inverno, do clima de montanha do Himalaias e do Tibete, de onde é originário. Viveu sempre só, não conheceu outros ursos e nunca correu pela floresta. Não experimentou bolotas, nunca nadou num rio e não amou. A natureza constringente dos factos sociais, neste caso impostos pelo homem, exerceram uma “força vinculante e coerciva” sobre Bo Bo. E, como explica Durkheim, ele nem reconhece essa coerção, e, ainda que quisesse agir, estaria condenado ao fracasso.

Entretanto, há um novo casal de pandas na aldeia. As fotografias revelam um par jovem, dinâmico e amoroso. São saudáveis, espertos e talentosos, entre outras qualidades que os tornam ideais para serem recebidos pela RAEM. Vivem num espaço lúdico, verde e limpo, que incluiu ar-condicionado e bambu escolhido pelos melhores chefes. Hoi Hoi também está contente, volta à China e vai viver numa reserva, irá conhecer uma panda simpática e reproduzir-se.

Bo Bo é uma espécie de imigrante indesejado com uma autorização de trabalho no Jardim da Flora. Bo Bo é um não-residente. Kai Kai e Xin Xin são residentes, talentosos filhos da pátria que enobrecem o território e deixam orgulhosos os cidadãos da RAEM. O carácter geral dos factos sociais deve-se a estes serem crenças e práticas que não constituem atributos individuais nem universais, mas que se referem àqueles sentimentos, pensamentos e práticas que seriam diferentes se os indivíduos, e os animais, vivessem noutros grupos.

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