A última Coca-Cola do deserto?

Catarina Mesquita

Durante anos a Coca-Cola liderou o topo da lista das marcas que as pessoas mais rapidamente conseguiam identificar. Quem não se recorda de perder uns pontos no “jogo dos países” porque todos os jogadores se lembravam de pôr “Coca-Cola” na letra C na categoria de marcas?

Mais do que a bebida, a marca sempre me fascinou pelos seus anúncios publicitários. Desde ser muito pequena e ver o camião vermelho a piscar com luzinhas de Natal até às campanhas mais recentes que “partilham alegria”.

Quando penso que já vi tudo, lá vem uma campanha que me deixa de boca aberta. É uma espécie de amor-ódio que uma bebida tão artificial consiga as melhores campanhas publicitárias que até dá (quase) vontade de consumir.

Na empresa que gere a bebida mais icónica do mundo surpreende-me que não haja uma regressão no ímpeto de fazer mais. A Coca-Cola poderia poupar uns milhões – seja em que moeda for – em publicidade que todo mundo iria continuar a consumir a bebida na mesma. Mas não. Ela continua a fazer mais e melhor!

Chega aos lugares mais recônditos do mundo e até em territórios tão pequenos como Macau, onde o preço da terra vale ouro, consegue manter uma fábrica há vários décadas.

O ano passado, as latas pediam que partilhássemos uma Coca-Cola com um macaense. Este ano a marca alia-se aos artistas locais para chegar mais perto do público, pedindo-lhes que decorem garrafas com mais de um metro de altura e com um design que celebra 100 anos.

Esta não é uma acção exclusiva de Macau. Pelas ruas de Nova Iorque a Coca-Cola espalhou garrafas numa “Bottle parade” inspirada na famosa “Cow Parade”.

Mas o que significa isto em Macau? Os artistas recebem a iniciativa com agrado mas será que esta abrirá um precedente? Esperamos que sim.

Se em Macau o público jovem prefere sentar-se no McDonald’s a beber, lá está, uma Coca-Cola, a estar numa sala de espectáculos então parece que esta é uma boa maneira de fazer chegar a arte ao público.

O impacto da Coca-Cola, principalmente nos jovens, é imbatível mas pode ser que as suas iniciativas sejam inspiradoras para que outras marcas se lembrem dos talentos de Macau.

Mas calma! Não é preciso que agora todos se lembrem de pintar réplicas dos seus produtos. Já há vacas, garrafas e cavalos suficientes pintados por aí com qualidade.

Não receio que o capitalismo associado às grandes marcas roube a exclusividade aos artistas porque acredito, talvez de forma ingénua, que “a partilha” que a Coca-Cola vende tão bem nas suas campanhas publicitárias também possa ser feita entre marcas de massas e produções artísticas de pequena escala.

A mesma grande mão que serve para esmagar pode, a certa altura, embalar e ajudar. Tenho então a esperança que esta iniciativa não seja “a última Coca-Cola do deserto”, principalmente deste deserto que é a cultura diversificada em Macau.

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