Auto-de-fé    

ULTIMATUM

Isadora Ataíde

Quando deixou de crer e parou de duvidar, Peter Kien incendiou a sua biblioteca e entregou-se à fúria das chamas.

Agnósticos, ateus ou materialistas, ainda que sublimem a metafísica do quotidiano e a reservem para os momentos lúdicos, eventualmente reconhecem que a vida requer actos contínuos de fé.

Apanha-se um avião e é preciso crer-se que a meteorologia, os pilotos e as tecnologia harmonizam-se para garantir a travessia. A maioria confiou que um americano negro de classe média – filho de académicos que se conheceram no Havai quando estudavam a Rússia contemporânea – estava destinado a tornar o planeta um lugar um mais seguro.

No copo do fim de tarde, para desanuviar os insistentes desenganos da realidade, não se cogita que o uísque é martelado. Quando um operário se torna presidente ou um homossexual primeiro-ministro, ecoam promessas de que o mundo tornar-se-á mais justo e livre.

E qual a opção, senão confiar nos diagnósticos dos médicos, nos prognósticos dos economistas ou nos conselhos dos advogados?! É preciso crer que as calotes polares não irão derreter, que a camada de ozono manter-se-á compacta e que os tsunamis e terramotos não nos irão alcançar.

Peter Kien, o mais brilhante filólogo e sinólogo de todos os tempos, conhecedor de línguas modernas e contemporâneas, publicou artigos académicos nas revistas mais prestigiadas do seu tempo e apresentou conferências saudadas como “definitivas” pelos seus pares. A genialidade de Peter Kien – que viveu entre os seus 25 mil livros, a sua secretária e uma poltrona para repousar – deveu-se a duvidar sistematicamente, num caminho tortuoso feito de sete círculos infernais que o arrastavam em cada pergunta da completa ignorância à crença total.

Um crédulo, o sinólogo Peter Kien. Por que não iria ele acreditar na sua empregada Teresa, tão dedicada aos seus papéis? Com base em qual princípio iria Peter desconfiar do anão Fischerle – arguto e sedutor, rejeitado pela sua aparência mas amado pela sua esposa, uma prostituta galardoada? E Pfaff, apesar de assassino, lá tinha coração e muitos motivos que o justificassem, e também nele Peter Kien confiou.

É preciso crer para prosseguir. Aposta-se que os americanos não vendem armas para o Estado Islâmico. Confia-se que a Europa e o Sudeste Asiático cuidarão dos refugiados que chegam às suas praias. Tem-se a certeza de que as democracias, apesar das suas falhas, ainda são melhores que os demais regimes. Assume-se que a liberdade de mercado torna o mundo mais competitivo e rico, e os homens mais satisfeitos. Reconhece-se que as Nações Unidas fazem o melhor para acabar com o trabalho escravo, com o tráfico de crianças e com a crise do ébola.

Acreditar é o auto-de-fé da vida humana. Não há escapatória, senão crer.

No Auto-de-fé, de Elias Canetti, Peter Kien vivia da dúvida para criar. O erudito tinha uma “vida boa”, porque contemplava e reflectia, e encontrara a “felicidade” porque “criava”. Nos homens acreditava por princípio. Não ficou desiludido por sempre crer, apenas exausto. Quando chegou ao seu limite, não hesitou em pôr fogo ao seu mundo, a sua colecção de livros raros, e a si próprio.

Até quando a convicção de que a vileza estampada nos jornais não é o retrato diário da miséria humana?! O Álvaro ascendia um cigarro e nele saboreava “a libertação de todos os pensamentos”, ganhando a consciência “de que a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto”.

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