Capacetes e cigarrinhos

Tapau no bufê

Rodrigo de Matos

Eu não fumo. Não é que me tenham acabado os cigarros e não tenha tido tempo de ir ali abaixo comprar outro maço. Não fumo mesmo. Confesso que não o faço apenas pelas razões mais racionais – o efeito de um cancro no pulmão na qualidade e esperança de vida de uma pessoa deveria bastar – mas também porque o cheiro dos cigarros me causa náuseas. Assim como me enjoam também os argumentos que alguns fumadores exalam por cada restrição que é imposta ao seu famigerado hábito.

O fumador português, em particular, é especialmente nojento. E não me refiro aos dentes castanhos e aos dedos amarelados, mas ao seu discurso manipulador, que associa a actividade restritiva do governo ao autoritarismo prepotente, servindo-se mesmo de paralelos com regimes ditatoriais. Fumar, para eles, é um acto revestido de um certo simbolismo antifascista cheio de nobreza heróica. Uns verdadeiros capitães de Abril estes viciados!…

Recentemente, ouvi alguém defender a opinião de que era ridículo acabarem-se com as salas de fumo nos casinos: “Se só lá entram outros fumadores, qual é o mal?”.

Pela mesma lógica, será que uma pessoa deveria ser obrigada a usar capacete ao andar do moto? Afinal, se ela cair só se está a magoar a si própria. Acontece que, se as pessoas deixarem de ter de pagar multa por não usar capacete, muitas deixarão de o fazer. Algumas vão ter acidentes e, entre essas, algumas têm filhos pequenos. Nesse caso, não obrigar a usar o capacete é o mesmo que dizer: “Os putos que se lixem. Deixa lá o gajo contrair uma lesão no cérebro e virar um vegetal!”… Algumas pessoas não são responsáveis e é trabalho de quem governa cuidar também dos irresponsáveis. Cabe à sociedade mantê-los na linha. Não chega fazer campanhas a apelar ao senso comum das pessoas. Porque algumas não têm senso comum. A menos que estejamos a ser darwinianos e a querermos livrar-nos dos mais idiotas por meio da selecção natural.

Proíba-se o tabaco! Sempre que digo isto, há um fumador que me responde: a obesidade mata tanto como o tabagismo e ninguém pensa em proibir as pessoas de comer ou em interditar os McDonald’s. Pois eu acho que se deveria. O Governo deveria aplicar multas a pessoas com peso a mais e criar clínicas de reabilitação forçada, em que os obesos fossem obrigados a comer saladas e a fazer exercício físico. Eles podiam até reclamar durante algum tempo, mas no final iriam agradecer.

E devia-se proibir as religiões, e os videojogos, e o hip-hop, e os filhos indesejados e, já agora, os artigos de opinião extremistas… Se assim fosse, eu tinha ido hoje mais cedo para casa, e a sociedade agradecia!

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s