Onde fica a verdade?

PODE IR À SUA VIDA

Sandra Lobo Pimentel

Não é fácil falar do caso Luís Amorim. Mas se não é fácil para quem acompanha o novelo que, ora se faz, ora se desfaz ao longo do processo, pior será para quem procurou respostas todos estes anos e vê, mais uma vez, as autoridades judiciais de Macau a julgarem tão assertivamente aquilo que aos olhos de um homem médio não pode deixar mais do que dúvidas. Muitas dúvidas.

O advogado da família avisou, várias vezes, que não seria razoável levar a tribunal o alegado autor (ou alegados autores) do crime para provar que o jovem português fora vítima de homicídio ou de agressões que resultaram em homicídio naquela noite de Setembro.

Mas pelos vistos só assim será possível que os responsáveis pelo poder judicial no território não escapem ao absurdo de continuarem a afirmar que, pelo menos, não houve negligência no tratamento do caso.

Quem conhece os contornos do que foi apresentado pela família ao longo dos anos, tanto junto do Ministério Público da RAEM, como agora do Tribunal Administrativo, percebe que há decisões por parte das autoridades que investigaram que carecem de explicações.

Se formos mais objectivos na visão acerca das intenções da família com esta acção, à partida, não era que Luís Amorim não cometera suicídio naquela noite que se pretendia provar (apesar da tentação óbvia em que acabaram por cair os quesitos), mas sim, a negligência nas diligências levadas a cabo pelas autoridades. Então, desde logo, a lavagem do local onde o corpo foi encontrado – um facto que não ouvi ser desmentido em tribunal – provaria que alguém não fez bem o seu trabalho.

Não deixa de ser constrangedor ouvir em audiência inspectores da Polícia Judiciária alegando anos largos de experiência no campo, se furtarem a responder se é um procedimento normal lavar o local onde é encontrado um corpo, sendo, no entendimento natural, um potencial local de crime ou de recolha de evidências sobre o cometimento de um.

Mais constrangedor, é perceber que um tribunal aceita que essas questões não sejam respondidas, mas depois valoriza o mesmo testemunho para deixar cair por terra a versão dos autores.

Se mais não nos incomoda, pelo menos que tenha esse condão o facto de termos profissionais forenses na RAEM que não sabem responder a uma questão da mais elementar prática da sua actividade.

E este é só um exemplo. Será que estamos todos convencidos que os médicos legistas em Portugal fizeram um favor a alguém ao concluírem que a morte do Luís Amorim não ocorreu por queda de altura elevada? Será que se enganaram tão redondamente ao afirmarem que o corpo apresentava lesões compatíveis com agressões? Tornou-se este um caso de rivalidade entre a qualidade dos profissionais portugueses e os da RAEM? É isso que se pretende provar?

E a verdade? Onde fica a verdade no meio disto tudo? Não é o poder judicial independente? Não é o poder judicial o garante da justiça e da dignidade dos cidadãos?

Perante tantas dúvidas que deixam os factos apresentados pelos autores, as versões das testemunhas, dos peritos, o vai e leva deste processo que chegou ao absurdo de ter as autoridades locais a remeterem para as portuguesas a condução desta investigação, afinal, não merecemos todos, pelo menos, um pouco mais? Nem que seja a dúvida razoável do próprio tribunal.

Porque o filho, o irmão, o colega, o aluno, o cidadão, esse, ninguém o pode devolver. Tragédias acontecem, todos os dias, em todas as partes do mundo. Mas a maior tragédia não parece ser o desaparecimento do jovem, mas sim a forma como a sua morte tem sido tratada ao longo dos anos.

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