Fica em Macau, não voltes para o Continente  

[Seja como a água]

Elisa Gao

Conheci Philippe há dois anos, quando prestava assistência a uma produtora de Zhuhai incumbida de realizar uma curta-metragem sobre a cidade. Quase com quarenta anos e um olhar melancólico, o fotógrafo mostrou um interesse particular nos tempos que passei no Porto ao abrigo de um programa de intercâmbio estudantil. Depois de me ter escutado atentamente, Philippe deu-me um conselho que não mais esquecerei: “Se tiveres a oportunidade de ficar na Europa, não fiques em Macau. Se tiveres hipótese de ficar em Macau, não voltes para a China”, disse-me.

A sugestão apanhou-me de surpresa. Estava no primeiro ano de Mestrado na Universidade de Macau, mas morava em Zhuhai e todos os dias empreendia uma viagem de mais de duas horas para assistir a um par de horas de aulas ao início da noite. A maior parte dos meus colegas, sendo do Continente, cumpriam o mesmo ritual: mais baratos, os preços em Zhuhai tornavam a conveniência de se viver em Macau remotamente menos atractiva.

Tendo vivido a maior parte da vida na Suíça e com os olhos postos em oportunidades de negócio à sombra do Zermatt ou nas margens do Lago Leman, Philippe possuía uma pequena empresa em Zhuhai e encontrava-se também a concluir um programa de Mestrado na Universidade da Cidade de Macau. Apesar de ter um carreira aparentemente bem sucedida, o fotógrafo deixou claro que, mais do que a situação profissional, o que para ele importava era a qualidade de vida e a pressão social a que estava sujeito.

Comecei a remoer no que me disse. E se Phillippe tiver razão? E se os estudantes do Continente que estudam em Macau, muitos a milhares de quilómetros de casa, tiverem a ambição de permanecer no território? Será que é legítima?

Ao longo dos três anos que levo em Macau, recebi por várias vezes amigos e familiares do Continente. Guiei-os pelos becos e pelas ruelas da cidade, levei-os às Ruínas de São Paulo, a um ou outro templo, a uma ou outra igreja. Partilhei com eles boas conversas e melhores momentos. Todos, sem excepção, me bombardearam com as mesmas interrogações: “Em média, quanto ganha quem trabalha em Macau? E o custo de vida, é elevado? Se conseguisses trabalhar cá, quanto achas que ganharias mensalmente?”

Conheço alguns antigos estudantes do Continente, muitos com Mestrado e alguns com Doutoramento, que acabaram por ir trabalhar para casinos, para bancos ou para companhias de telecomunicações, em áreas associadas às novas tecnologias da informação. Um ou outro conseguiram emprego como tradutores, fulano e sicrano como jornalistas. Uma tornou-se mesmo apresentadora numa estação de televisão local. Os meus amigos do Continente estão convictos que trabalhar em Macau é sinonimo de uma melhor remuneração e, como tal, também de melhor qualidade de vida. Concordo parcialmente, tendo por base os salários mais elevados que por cá são pagos.

Há meio ano, recebi uma amiga de Shenzhen e o mesmo tópico voltou à baila. Expliquei-lhe, não sem um certo grau de entusiasmo, que teria provavelmente melhores condições económicas se lhe fosse dada a oportunidade de trabalhar em Macau. Discordou. Enquanto funcionária de um banco na mais vibrante das metrópoles da vizinha província de Cantão, a minha amiga aufere entre 5000 e 6000 renminbi, mas como é local, não tem necessidade de alugar casa ou, na pior das hipóteses, um quarto. Falou-me, ainda assim, de uma colega que vive num quarto por menos de 1000 renminbi, pagos mensalmente e assegurou-me que gasta também menos de 1000 renminbi com despesas de alimentação. Pode ainda comprar roupa barata ou em centros comerciais ou através do Taobao e chega ao fim do mês, garante-me, com 3000 renminbi. Eu não era a única amiga que ela tinha no território e ela fez questão de me lembrar de um amigo comum: trabalha numa empresa de informática, ganha entre 13 e 14 mil patacas mensais, paga quase quatro mil patacas patacas por um quarto e gasta em média 3000 patacas em alimentação. Aos gastos acrescem despesas com transportes e com o telefone e o peso da distância. Ao fim ao cabo, disse-me, “poupa o mesmo que eu. Como podes dizer que é melhor que Shenzen?”

Senti-me pequenina como uma gota de água, sem argumentos para continuar. O silêncio apoderou-se de mim e deixei de ter certezas.

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