A odisseia dos imigrantes

[ULTIMATUM]

Isadora Ataíde

Depois do Estado Islâmico, os imigrantes são transformados na maior ameaça mundial. No Mediterrâneo ou no Pacífico, há milhares de náufragos e condenados a procura de encontrarem o seu espaço no mundo. Quando os barcos naufragam e os homens morrem, sobretudo quando “esta gente” se torna uma ameaça à ordem social dos países nos quais querem entrar, o mundo fica em pânico.

A União Europeia, depois de uma grande debate entre os 28 para dividir sete mil imigrantes, anunciou esta semana a operação EUNAVFOR MED. A estratégia dos humanistas europeus é impedir a saída dos africanos de África. As tácticas são elaboradas: identificar as redes de tráfico em solo líbio e desmantelá-las, capturar e desviar em alto mar as embarcações de imigrantes e “tomar todas as medidas contra os barcos activos”, leia-se destruí-los. A solução final precisa da aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. No entanto, a alta representante da UE para a Política Externa, Federica Mogherini, parece confiante e orgulhosa do plano europeu: “Estamos a mostrar que quando há vontade política se pode actuar rápido”, assinalou.

Mais a leste a situação também é dramática, com milhares de refugiados a vogarem entre o Índico e o Pacífico, a maioria com origem no Myanmar. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Malásia, Anifah Aman, diz que o país não pode aceitar imigrantes. “Temos de olhar para os nossos também, os nossos problemas sociais e de segurança, temos de os ter em consideração”, explicou-se. Esta é a postura do país que actualmente lidera a ASEAN. A Tailândia e a Indonésia têm atitude semelhante. Não aceitam os imigrantes, mas quando interceptam um barco, dão comida e água para os sobreviventes e enchem o tanque de combustível, para que as embarcações possam continuar o seu périplo, quiçá encontrem a Atlântida.

Abertura dos mercados, reforma da economia, reforço dos fluxos financeiros, livre circulação dos capitais e todas as liberalizações possíveis são continuamente propagadas – pelos teóricos liberais, pelos agentes do capitalismo e pelas lideranças globais.

No entanto, não há quem defenda a livre circulação de pessoas. A ideia de que os homens, enquanto seres iguais em direitos e liberdades, reforça-se apenas enquanto retórica. Se a igualdade dos homens enquanto conceito se materializou no século XIX e se disseminou no século XX, a sua negação prática, nas discriminações do quotidiano e nas relações entre homens e países, é uma marca d’água da nova era.

Os países que contêm e impedem a imigração – latina para os Estados Unidos, africana para a Europa, ou muçulmana rohingya para a Ásia – justificam as suas políticas com a limitação dos empregos, com a pressão sob os sistemas de segurança social, com as diferenças culturais e religiosas ou com a potencial ameaça à segurança que os imigrantes representam.

Porém, tais argumentos encobrem uma ideia e uma prática estrutural de diferenciação entre o “nós” e o “outro”. Reflectem o pressuposto de que as diferenças culturais entre os indivíduos e a sociedade sobrepõem-se à espécie, tornando a convivência indesejada e impossível.

Lévi-Strauss dedicou a sua vida a tentar demonstrar que as diferenças culturais entre os homens são superficiais. Entre as características universais observadas pelo antropólogo, consta a forma como os homens constroem e dividem o mundo, categorizando-o e reduzindo-o a unidades descontínuas. As políticas em relação ao homem e à imigração são simbólicas de que nada se aprendeu com Lévi-Strauss e o século XX, pois o espaço, o homem e o seu tempo continuam a ser diferenciados e discriminados – em unidades descontínuas – para o exercício do poder do “nós” sobre o “outro”.

“O mundo é o que é, e cada um necessita de encontrar o seu próprio espaço”, escreveu V.S. Naipul, a constatar a tragédia humana. Como Ulisses contemporâneos numa odisseia sem fim, os imigrantes de hoje navegam sem rumo em busca de um espaço e de um tempo perdidos.

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