O fantasma de Iec Long

Catarina Mesquita

Das primeiras fotografias que tirei em Macau estou encostada a um largo muro na velha Taipa que, por ser tão extenso, não conseguiu caber dentro de toda a objectiva da minha máquina fotográfica.

Uns meses depois de ter captado essa imagem, o mesmo muro ganhou outra frescura quando foi pintado, dando a sensação de que algo se iria passar por ali.

Porém, o portão que interrompe o bloco de cimento de vários metros é um portão ferrugento que continua fechado, alimentando a curiosidade que sempre tive de lá entrar.

Como poderia um espaço tão grande e cheio de árvores ser proibido à população?

Depois percebi que se tratava da fábrica de panchões Iec Long, porque também o letreiro da entrada tinha sido pintado, julgando que o aproximar do ano novo chinês a actividade fosse retomada.

Mas não. Pouco soube sobre a antiga fábrica depois de reparar que a fachada estava renovada até ao dia em que os realizadores João Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues me escancararam o portão ferrugento com a curta-metragem “Iec Long”.

A viagem de 30 minutos proposta pelo filme guia-nos por aquilo que a fábrica de panchões foi e a importância magistral que teve na indústria de Macau, principalmente na década de 60.

Foi um mero acaso que me fez cruzar com a história construída pelos realizadores portugueses e que tem sido levada este ano a várias cidades do mundo.

No entanto, não posso deixar de pensar como é irónico que uma fábrica onde se produzem panchões – que diz a lenda servirem para afugentar a má sorte – pareça ter sido atacada por uma grande maldição.

Não sou do tempo em que pai, mãe e filhos faziam do trabalho naquela fábrica o sustento da família inteira. E também não sou da altura em que, já em tempos mais modernos, se jogava naquele espaço uma espécie de “paintball”.

Vivo, ainda assim, há tempo suficiente em Macau para perceber que o pulmão da Taipa antiga está há demasiados anos fechado em memórias de uma era industrial que não está devidamente dignificada.

A área, com cerca de 30 mil metros quadrados constitui um lugar de sonho para artistas, ambientalistas, desportistas. Mas também já foi o sonho de quem ali quis construir uma torre residencial.

Até quando será este espaço apenas um local para imaginar? “For how long, Iec Long?”

Seria bom que se perdesse o medo do fantasma que mora lá dentro e se desse à chave no portão ferrugento para que Iec Long deixe de ser só um nome num muro pintado de fresco.

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