A redenção de Milk

Márcia Souto

 

Até ao início dos anos 1990, na lista da OMS (Organização Mundial da Saúde), havia um item em que se considerava a homossexualidade uma espécie de doença mental, o que só demonstra o quanto foi/é preciso galgar para se chegar à respeitabilidade obrigatória relativamente à sexualidade das pessoas.

No dia 17 de maio, data escolhida devido à retirada das práticas homossexuais da lista de doenças da OMS, comemora-se o Dia Internacional contra a Homofobia e um pouco por todo o mundo lembra-se o que nunca deveria ser ou estar esquecido: homofobia é crime.

Na esteira das comemorações, queria atrelar dois fatos recentes que comprovam que os tempos são outros, ou ainda, que a nossa sociedade de alguma forma tende à evolução.

Xavier Bettel, o primeiro-ministro do Luxemburgo, casou-se no último dia 15 de maio com o arquiteto Gauthier Destenay, não provocando surpresa alguma, uma vez que o seu eleitorado tinha pleno e respeitável conhecimento da sua orientação sexual. Noutros tempos, o político norte-americano Harvey Milk, assumindo seu homossexualismo, havia sido morto pela intolerância. Estas bodas luxemburguesas são claramente a redenção de Milk.

Em Viena, criou-se uma sinalética de trânsito em que se veem casais homossexuais de mãos dadas. Como este ano a competição musical Eurovisão ocorre na Áustria, as autoridades austríacas quiseram brindar o público com esta homenagem, uma vez que no ano passado o vencedor do concurso foi Conchita Wurst, a cantora de vestido e barba, que passou a ídolo de muitos gays e simpatizantes desta causa.

Achei muito criativa a homenagem vienense, já que a sinalética de trânsito pode dizer muito dos conceitos subjacentes a uma sociedade. Lembro-me do marotismo da cantora e compositora brasileira Adriana Calcanhoto que disse ter adorado Lisboa pela homenagem que fizera ao poeta Fernando Pessoa, representando-o nos sinais de travessia de peões. Aquele chapéu só poderia “ser o Pessoa” a caminhar pelas ruas da capital portuguesa.

Ou ainda a velha anedota em torno do “Cuidado com as nossas crianças”, que acompanha algumas vezes os sinais indicadores de que o sítio é frequentado por miúdos. Dizem que um distraído condutor teria perguntado o motivo para tal cuidado ou seriam perigosas as crianças daquele lugar?

Humor à parte, tanto na nova sinalética austríaca quanto na brincadeira de Calcanhoto e na anedota em torno do “cuidado”, a questão que se põe é a interpretação que a sociedade está preparada para dar aos símbolos que a rodeiam. Como todos têm o direito de se verem representados nas sinaléticas, é muito justo que haja casais homossexuais a atravessarem as ruas da Áustria e de todo e qualquer país do mundo, assim como terem o direito ao casamento como o PM luxemburguês. Isso, sim, é ter cuidado com as nossas crianças, com a educação e o respeito pela diversidade e o direito a serem quem quiserem, como defende a Associação macaense Arco-Íris, que luta pelo direito à alteração do sexo nos documentos de identificação dos transsexuais.

Ainda que os sinais de passagens de peões mais modernos tenham retirado o pessoano chapéu do “bonequinho”, creio que se pode continuar a ver Fernando Pessoa a passear por aí sem chapéu, sem indicação de género ou de mãos dadas com outro homem, afinal ele mesmo já escrevera “A minha arte é ser eu. Eu sou muitos.

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