Um líder intrigante

[Olho Mágico]

Eric Sautedé

Estando sensivelmente a meio do seu primeiro mandato como líder supremo da China, Xi Jinping tornou-se por si mesmo um objecto de estudo e de interrogação, no que constitui uma outra forma de um “novo normal”, sobretudo depois de ter impulsionado uma ruptura radical com a antiga liderança chinesa e a chamada “década perdida” de Hu Jintao. Mas a governação de Xi Jinping é também um “case study” pela profundidade e o alcance de tudo o que o líder chinês designou como prioritário em termos de orientação política, com o combate à corrupção a destacar-se de forma bem visível.

A assertividade dentro e fora das fronteiras da República Popular da China tornou-se a sua marca registada e a sua forma de estar, confiante e discreta, ajudaram a tornar convincente aos olhos de muitos o propósito de manter intocado e intocável o domínio do Partido Comunista da China (PCC).

Num sondagem recentemente promovida pela revista Foreign Affairs e pomposamente intitulada “Será que a China se vai desmoronar?”, 32 especialistas e académicos de vários áreas do saber e com um percurso muito diferenciado foram convidados a pronunciar-se sobre se concordariam ou não com a afirmação “O actual regime chinês não vai sobreviver mais uma década se não forem conduzidas reformas significativas”. Muito surpreendentemente, 19 dos académicos inquiridos discordaram ou discordaram absolutamente com a afirmação, seis preferiram não responder e apenas sete concordaram ou apoiaram inteiramente o teor da declaração. Apesar da questão ser ambígua e relativamente vaga – estamos a falar exclusivamente sobre reforma política? Uma eventual reforma é necessariamente sinónimo de um avanço rumo a uma democracia liberal? Falamos de “reforma” como alternativa a “revolução”? – os resultados facultam indicações claras de que, não obstante os riscos decorrentes das purificadoras purgas anti-corrupção e do declínio do crescimento económico (questões das quais depende a própria legitimidade do Partido), existe um nível significativo de confiança na capacidade do PCC, sob a liderança de Xi Jinping, poder vir a ultrapassar a aparente inconsistência de promover reformas económicas sem se comprometer com reformas políticas de longo alcance.

No sempre persistente confronto entre a ideia de “resiliência autoritária”, cunhada por Andrew Nathan no início da década de 2000 e a noção do inevitável “colapso” induzido por contradições internas popularizado por Gordon Chang, Pei Minxin ou mais recentemente por David Shambaugh, a resiliência parece estar a levar a melhor. No entanto, nenhum destes especialistas vê o modelo chinês como um modelo alternativo à democracia liberal e nem um único concordará, certamente, com a ideia, veiculada recentemente por Daniel Bell que a “meritocracia política ao estilo chinês pode ajudar a remediar as principais falhas e fraquezas da democracia eleitoral”.

O carácter resoluto das acções de Xi Jinping traduz-se pela percepção de que o estado chinês dispõe de uma capacidade renovada para levar a cabo as promessas de modernização que anunciou. Xi, “o líder que nasceu vermelho”, continua, ainda assim e em grande medida, a ser um enigma, não obstante possuir credenciais imaculadas e ser o mais “publicitado” dos líderes chineses desde Mao Zedong. Vários livros com textos seleccionados já foram dados à estampa e as autoridades chinesas produziram mesmo uma aplicação para telemóvel – “Estudar a China “ (xuexi zhongguo) – que dá a conhecer a obra completa do Presidente chinês, a sua agenda de viagem e os seus poemas favoritos. A imagem de “Xi Dada”, o “Tio Xi”, como foi apelidado pelas agências noticiosas estatais, ilustra autocolantes e broches e pode ser encontrada sob a forma de estatuetas ou ainda em livros e publicações de banda desenhada. São muitos os que sublinham que a aposta em tais estratégias de popularização pode ser confundida com uma forma de reabilitação do culto da personalidade. Não obstante, Xi continua a ser retratado como sendo genuinamente acessível e numa série de vinhetas de banda desenhada publicadas no ano passado, o sonho presidencial chinês passa pela conquista do Campeonato do Mundo de futebol. Apesar das inúmeras referências à era maoísta e à forte repressão de que tem sido alvo a sociedade civil e toda e qualquer forma de dissidência (ainda mais significativa se houver suspeitas de ingerência ou influências ocidentais), muitas das reformas no domínio económico e social parecem ser guiadas pelo pragmatismo. Se o desejo para o rejuvenescimento e o renascimento da China, tal como argumenta Willy Wo-Lap Lam em “Chinese Politics in the Era of Xi Jinping, é difícil de refutar e faz parte das linhas mestras da narrativa política desde a humilhação sofrida durante a Primeira Guerra do Ópio, outros motivos ulteriores são difíceis de verificar.

Numa perspectiva de certa forma tradicionalista e neo-autoritária, a concentração de poder num único líder, supostamente iluminado, é necessária para garantir que o barco progride na direcção correcta. O desfecho que há que evitar a todo o custo foi o que presidiu à queda do Partido Comunista da União Soviética, precisamente por falta de confiança e de resolução. A ideia parece obsessiva, mas não o é. Para Willy Lam, a excessiva monopolização do poder que empurra mesmo o primeiro-ministro Li Keqiang para segundo plano, a criação ad hoc de grupos e de comités que de certa forma contornam o poder do Comité Central e a falta de promoção da chamada sétima geração de líderes são, para muitos, sinais inequívocos de apego ao poder. Se a estes aspectos juntarmos a admiração que Xi Jinping nutre por Vladimir Putin e pelos quinze anos de exercício de poder protagonizados pelo líder russo, sobejam indicações de que os propósitos da liderança chinesa podem ir muito além da reabilitação do Partido Comunista Chinês. São muitos os indícios que sugerem que Xi Jinping poderá ter interesse em manter-se à frente dos destinos da República Popular da China pelo menos até 2027. Para um pensador liberal como Wu Jiaxing, o apego ao poder e o apertar do cerco para com facções rivais no seio do partido corresponde à fase de consolidação que habitualmente precede a apresentação de reformas políticas. O enigma mantém-se ainda assim: dependendo da intensidade com que se materializa o apego e se monta o cerco a eventuais dissidentes, corre-se sempre o risco de se estrangular o potencial para a inovação e a reforma.

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