Ana Maria Amaro – uma mulher sem fim

João Paulo Meneses

Ana Maria Amaro era uma mulher frágil. E por isso impressionava ver como a sua força anímica era capaz de ultrapassar todas as limitações físicas.

Depois da morte do marido, a Professora, como sempre a tratei, encontrou razões para prosseguir sozinha um percurso que ultrapassou muito o limite da universidade. E na universidade ela fez muito: fez um dos primeiros doutoramentos em Portugal sobre temas chineses, organizou os primeiros fóruns regulares de sinologia, foi pioneira na promoção do ensino do chinês, ainda em cursos livres, e criou, obviamente, o Instituto Português de Sinologia.

Sozinha lutou contra os que se lhe opuseram e os que não a queriam deixar continuar. Ou não percebiam a importância do que estava em causa. Sim, hoje enche-se a boca com a China, mas quando ela começou não era assim, nem de perto nem de longe. Da sua energia e inteligência se fizeram dezenas de iniciativas e livros sobre o Império do Meio ao longo dos últimos 20 anos. Do seu bolso pagou muitas despesas.

Já doente, ainda encontrou forças para organizar o IX Fórum Internacional de Sinologia, em Leiria no ano passado. Coincidência ou não, foi o último que se realizou, o que significa que, sem ela, não aconteceu a X edição. Agora, que a tenebrosa noticia do seu desaparecimento se fez tangível, deixo um voto: espero que os seus ‘herdeiros’ saibam estar à altura da memória e da obra da Professora.

Foi em Leiria, em Fevereiro de 2014, que a vi pela última vez. Eu e toda a família, que a Professora sempre manteve uma relação de proximidade com todos nós. Percebemos que estava no limite e até a aconselhei a abrandar.

Mesmo sem o querer foi, poucos meses depois, obrigada a parar por problemas de saúde, sobretudo de visão. Tanto quanto julgo saber, nunca mais se recompôs, ainda que tenha tido algumas melhoras. Deixou de poder responder aos emails e já não devolveu a carta que o meu filho lhe enviou no Natal.

Não sei se morreu feliz com a obra que nos legou, mas acredito que não. Sempre foi uma mulher inconformada e cheia de planos. Nessa última vez falou-me de vários projectos – incluindo livros por acabar – que não chegou a concretizar. Mas isso também não era o mais importante. A sua vida não teria um fim, porque a seguir novos desafios haveriam sempre de surgir.

Feitio difícil? Provavelmente sim. Exigente. Demais? Para mim, não. Nunca mais esquecerei e partilho o carinho que, até este morrer, demonstrou por Monsenhor Teixeira nas diversas vezes que o foi visitar a Chaves (vinha de propósito de comboio até ao Porto e íamos, depois, de carro até Chaves). A paciência, o empenho em tentar melhorar a sua situação no Lar, as trocas de cartas com o seu contemporâneo até sair de Macau fazem parte das minhas memórias. Guardo as cartas, que teve a amabilidade de me oferecer, como se fossem tesouros.

Teimosa? Isso disse-lhe eu várias vezes, quando falávamos em regressar a Macau. Até cheguei – confesso agora – a tratar, informalmente, de a tentar incluir numa comitiva oficial, mas a Professora sempre recusou. Como também recusou colaborar com um projecto pessoal, que passaria por um documentário e um livro, sobre o seu regresso, que eu queria produzir. Saiu em 1972 e terá prometido nunca mais voltar – provavelmente por devoção às memórias dos momentos que aqui viveu com o marido, funcionário do governo de Nobre de Carvalho.

Presa ao passado, mas sempre a pensar no que fazer no futuro . Eis Ana Maria Amaro, que agora nos deixa.

Porque esteve muito tempo a recuperar, e até teve de deixar a casa onde sempre viveu em Cascais, não a fui visitar neste último ano. Tenho pena, mas agora é fácil falar. Foi por comodismo e a Professora não merecia isso.

A esta hora, já lá em cima, terá encontrado Monsenhor Teixeira e já estarão a fazer planos. Ela era assim, uma mulher sem fim.

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