A depressão mundial em meio à prosperidade

[ULTIMATUM]

Isadora Ataíde

Todas as semanas há uma enxurrada de artigos na imprensa da China a criticar o Japão. Na agenda dos media acusa-se o vizinho de adoptar uma atitude belicista caso modifique a sua constituição, ataca-se os gastos militares do concorrente, aponta-se o dedo à sua aliança com os Estados Unidos e controla-se todos os passos da sua política económica. Porém, o tema favorito entre os artigos, textos de opinião e reportagens, é o discurso de Shinzo Abe, que invariavelmente não pede desculpas à China, à Ásia e ao mundo. Esteja em Washington ou Jacarta, a grande imprensa – não só o Diário do Povo e o Global Times, mas também o China Daily e o South China – não perde uma única oportunidade de destacar que o primeiro-ministro do Japão não pediu desculpas: pela guerra e ocupação de Taiwan e da Península da Coreia no século XIX, pelos danos infligidos à população e ao país na segunda guerra sino-japonesa, pela Segunda Guerra Mundial e por outras pequenas e grandes tragédias que só podem ser responsabilidade (leia-se culpa) do Japão.

China e União Europeia assinalam 40 anos de relações diplomáticas. As comemorações decorrem em “Paz, Prosperidade, Desenvolvimento Sustentável e Intercâmbio de Pessoas”, como prevê a agenda de cooperação estratégica assinada pelos parceiros em 2013.

A alta representante para Política Externa e Segurança da União Europeia, Federica Mogherini, afirmou na semana passada que a UE e a China “testemunharam grandes êxitos desde que estabeleceram relações diplomáticas”. Os êxitos, reconhece Mogherini, são sobretudo económicos, visto que a China é o segundo maior mercado da UE e o segundo maior parceiro do bloco europeu, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Não se ouvem críticas da China à União Europeia, conselhos para o bloco superar a sua crise económica, política e social, que se agrava e não dá sinais de alívio. Do lado de lá, também não se escutam orientações sobre o melhor caminho a ser percorrido pelo Império do Meio, numa simpática política de não-interferência, a qual, objectivamente, faz com que as relações China-UE decorram em plena “paz e prosperidade”.

Afinal, não haveria “êxitos” na relação entre os dois gigantes se diariamente aparecessem na imprensa artigos a criticar os líderes europeus. Por exemplo, “David Cameron foi reeleito, mas no seu discurso não pediu desculpas à China pelas duas guerras do ópio”. Ou, “Na sua intervenção nas Nações Unidas, François Hollande não se retratou da destruição do Palácio de Verão, nem cogitou devolver as obras de arte que saqueou à China”. Ainda, “As principais lideranças da Europa esquecem-se que o Tratado de Versalhes permitiu a ocupação japonesa na China”. Ou então, “A Europa insiste em não lamentar a persistência dos danos provocados pelo colonialismo na Ásia”. Não, nestes termos os últimos 40 anos não seriam uma história de sucesso .

Talvez o Partido Comunista e Xi Jinping tenham adoptado o lema dos imperadores chineses: “Recto, Magnânimo, Digno e Sensato”. Porque, sem tal sensatez, não haveria paz e prosperidade nas relações entre a China e a União Europeia.

No entanto, o mais provável é que a cordialidade chinesa para com a UE seja apenas um reflexo do capitalismo a aplainar os desentendimentos em prol dos lucros. Em entrevista ao canal Russia Today, o filósofo Slavoj Zizek dizia que “o capitalismo global minimiza as diferenças entre os regimes políticos, torna os países e os sistemas democráticos e autoritários cada vez mais semelhantes”. A jornalista não gostou: “Mas esta é uma perspectiva deprimente para acabar o programa”. “Sim, eu estou deprimido, a situação mundial é deprimente”, replicou Zizek.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s