Viagra cultural  

[Tapau no bufê]

Rodrigo de Matos

Duas associações estão a planear criar em Macau um museu temático sobre prostituição que irá ficar localizado, de forma simbólica, junto à Rua da Felicidade, uma zona que um dia foi famosa pelos bordéis que alojava, pelo ópio que ali se fumava e pelo fan-tan que ali se jogava. Houve quem estranhasse a ideia, mas o que eu acho esquisito é que não haja muitos mais museus semelhantes pelo planeta, ou não fosse aquela a “profissão mais antiga do mundo”, como toda a gente gosta de dizer, embora eu me pergunte se a de camionista não terá aparecido primeiro (uma daquelas questões do ovo e da galinha).

Pesquisei exaustivamente na Internet, durante um extenso meio minuto, para descobrir que não foi há muito mais de um ano que abriu em Amesterdão o primeiro museu de prostituição do mundo. A capital holandesa foi pioneira em converter o seu famoso De Wallen, o Bairro da Luz Vermelha, numa atracção, diversificando uma oferta turística que se começava a manifestar demasiadamente centrada em coffee shops de venda de marijuana, cogumelos mágicos e coisas que tais. Quando abriu em Fevereiro do ano passado, o Museu dos Segredos da Luz Vermelha suscitou uma vaga de críticas dos sectores mais conservadores, mas a verdade é que se transformou numa proposta cultural original e com grande potencial educativo. Antigamente, no tempo em que ainda não havia educação sexual na escola – já há, não há? – os pais proporcionavam aos filhos adolescentes uma ida a discretos estabelecimentos onde se deixava o ensino das coisas boas da vida nas mãos (e outras partes do corpo) de profissionais. Hoje em dia, podem simplesmente mandá-los ao museu.

Macau pode tirar partido da experiência de Amesterdão para dar forma a um espaço e a uma iniciativa que promete vir a ser mais uma atracção turística com potencial para diversificar o panorama cultural da cidade. Não é à toa que o museu foi inserido no “plano de revitalização” para a zona da Rua da Felicidade, pois uma das suas funções vai ser mesmo funcionar assim como uma espécie de Viagra cultural, despertando a libido dos nossos intelectos. Sugestões para o nome: Meretriseu, Rameiranário ou Centro Prostitural de Macau.

E agora, porque o Tapau no bufê também é serviço público, aqui ficam algumas ideias de outros espaços culturais pioneiros que Macau teria todo o interesse em criar:

  • Museu das Tríades – Espaço cultural dedicado ao crime organizado, com capacidade para receber visitas de escolas e despertar nos jovens o bichinho de uma área com tanto futuro.
  • Museu da Ludo-dependência – Centro de exposições sobre as belezas do vício do jogo.
  • Karaokário – um aquário público onde, em vez de espécies subaquáticas, seriam exibidos exemplares do mundo maravilhoso da bebedeira e do cantar desafinado. O vomitódromo seria uma das suas atracções.
  • Museu da Política – Porque os filhos delas também têm direito.
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