Ainda à volta da cultura 

[Dinâmicas e contextos da pós-transição]

Carlos Piteira

À falta de um tópico mais específico sobre a realidade da RAEM/Macau, retomo o tema da cultura, até porque, o mesmo é inesgotável, quer pelo seu interesse na generalidade, quer pela sua particularidade quando nos referimos a Macau e aos macaenses por exemplo.

Dissertar sobre o conceito de «cultura» é por si só um tema vastíssimo e demasiadamente complexo para que o possamos abarcar em breves linhas. O esforço vai no sentido de o tentar sistematizar enquanto conceito à luz dos conhecimentos já adquiridos no domínio das ciências sociais e em particular pela Antropologia, que o tem reclamado como unidade analítica da disciplina.

Pretende-se, apenas e só, suscitar reflexões e possíveis questões de enquadramento para o tema da cultura que a vasta rede social de Macau vai abarcando.

Assim sendo, tentarei sumarizar os principais traços distintivos que a Antropologia vem colocando neste domínio a fim de proporcionar uma percepção enquadrada nesta vertente e, quem sabe, facilitar o seu entendimento em termos da abordagem sociocultural que hoje tanto está na moda.

Em síntese, podemos agrupar as grandes fases da evolução da Antropologia Cultural em quatro momentos distintos:

1º Período: (A formação da Antropologia)

O legado que os povos vão deixando em termos arqueológicos acaba por ser o contributo sucessivo para a origem da Antropologia que, como qualquer ciência, não tem propriamente um início. O que se denomina hoje por “era moderna” no domínio dos conhecimentos significou talvez a mudança mais radical.

O Séc. XVII preparou o Iluminismo, o culto da razão, o século das luzes, ao mesmo tempo que gerava a fase antropocêntrica com base no culto do Homem pelo Homem, dando origem ao despotismo no campo social e político e ao domínio da natureza pela ciência.

No campo da Antropologia, os marcos fundamentais assentavam no desenvolvimento do estudo da «cultura», essencialmente motivada pelas grandes descobertas marítimas que invadiram a Europa dos relatos, artefactos e costumes a respeito de povos até então desconhecidos.

Os estudiosos da época passaram não só a preocupar-se com a localização dos fósseis e dos vestígios mas também com a sua história e evolução, apercebendo-se de que ambas estavam interligadas, surge assim o interesse pela pré-história, nomeadamente pela arqueologia e paleontologia que catalisou as primeira descobertas sobre a diferenciação de culturas.

2º Período (A convergência da Antropologia)

O conceito de «evolução» está presente em quase todas as pesquisas desde o segundo quartel do Séc. XVIII até ao início do século XX. Este conceito anima quase todas as ciências ligadas ao campo das ciências humanas, desde a Biologia à Filosofia passando pela Sociologia e Antropologia.

Apesar da diversidade científica que marca este período, a discussão centraliza-se em torno de uma concepção homogénea, isto é, passa a ser dominada, especialmente no campo da Antropologia, pela convergência de dois objectos de estudo comuns: a origem e a evolução.

Era então “moda” entre os antropólogos proteger os chamados “povos primitivos”, assumindo-se a pesquisa de campo como técnica privilegiada. A necessidade em defender as “culturas primitivas” aparecia como que reflexo da própria evolução humana. Era ali que estava o “espelho” do Homem e das suas diferenças culturais.

3º Período (A construção da Antropologia

O evolucionismo alcança o apogeu neste período como teoria, estendendo-se quase até ao segundo quartel do século XX.

Uma das principais críticas do chamado período evolucionista e da fase da construção da Antropologia Cultural foi essencialmente o da ausência do trabalho de campo como metodologia específica.[1] O que enfraquecia o seu rigor metodológico e científico.

Num outro sentido o trabalho dos evolucionistas, apesar de utilizar provas, não era capaz de se sobrepor à evidência das provas paleontológicas ou arqueológicas (os fósseis e os artefactos da antiguidade), que acabavam sempre por utilizar como evidência, ou seja, a de determinar quais foram as suas origens e os seus estádios de desenvolvimento e/ou evolução.

Assim, procurou-se reforçar as disciplinas da Paleontologia e da Arqueologia de forma a cobrir esta lacuna (acabando por lhes dar uma autonomia que ainda hoje perdura). Por outras palavras, a pesquisa de campo do evolucionismo acabava sempre por descambar na actividade da Paleontologia ou da Arqueologia, não encontrando soluções alternativas.

4º Período (A crítica antropológica)

Este período que se inicia em paralelo no início do Séc. XX, arrasta-se até nos nossos dias e é sem dúvida o período mais fecundo da Antropologia Cultural. Neste período chegou-se a colocar a hipótese da extinção da ciência antropológica pelo desaparecimento gradual dos chamados “povos primitivos”. Nada de mais errado. Pelo contrário, a Antropologia ganhou novos contornos de pesquisa e consolida a sua importância na pesquisa do social, porque soube divorciar-se de uma visão única e reducionista dos seus antecessores, para abarcar uma perspectiva holística da humanidade sem lhe retirar a singularidade que o relativismo cultural ia induzindo.

As “sociedades primárias”, antes apenas estudadas pelos europeus e americanos, começam também a ser consideradas pelos asiáticos, africanos e latino-americanos. A realidade sociocultural toma novos rumos e é analisada por “olhares” diversificados, a crítica torna-se cada vez mais autêntica. A Antropologia deixa cada vez mais de estar ao serviço do colonialismo europeu, libertando-se e autonomizando-se pela via da relativização.

Por outro lado, a Antropologia começa a debruçar-se sobre a pesquisa etnográfica, de colecta e registo de dados, que aparentemente eram de menor importância, no entanto seria esta que viria a permitir (porque recheada de elementos), o salto qualitativo para a análise etnológica, dado que, o trabalho etnográfico não poderia ficar despido de conotação teórica. O registo dos elementos culturais levou a uma sistematização e compreensão do fenómeno cultural numa vertente até aí ainda inexplorada, exigindo uma teoria a respeito da cultura e do surgimento das identidades culturais como contraponto da unificação generalista.

É pois o despertar da ciência antropológica, para a criação do «campo cultural» como objecto preferencial do seu estudo. O conceito de cultura, enquanto objecto de formulação científica, é pois, cada vez mais aliciante e desafiador, abarcando áreas multi e pluri disciplinares. Contextos como a regionalização, a globalização, as cidades, os conflitos interétnicos, as migrações, etc., emergem nos estudos da cultura e rompem com as barreiras da sua impossibilidade e aplicabilidade, às chamadas sociedades urbanas e contemporâneas.

Estamos assim perante uma nova fase da Antropologia, que se foca na «Antropologia das Sociedades Complexas», cada vez mais concentrada, na perspectiva da mudança e desenvolvimento social e na perspectiva da «Antropologia do Quotidiano» que atribui ao Homem enquanto ser cultural um papel determinante na contextualização sociocultural, enformando uma nova perspectiva dimensional do espaço e do tempo.

A crítica é ainda a marca dominante na actualidade. As possibilidades de enriquecimento que esta atitude crítica pode vir a trazer são ilimitadas no sentido em que explora em várias direcções as explicações do fenómeno cultural enquanto invenção do Homem. Deste modo pode-se quase afirmar que o conceito de «cultura» está ainda por reinventar.

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