Os senhores do tempo

[O OUVIDOR OCIDENTAL]

Fernando Sobral

As nações têm o seu tempo. Os impérios também têm o seu. Sun Tzu, mestre na arte da guerra, sabia o valor do tempo: “Triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar”. Foi assim no passado. É assim no presente, neste mundo onde se julga terem desaparecido as fronteiras. Mas elas continuam lá, como cidades invisíveis, à espera do seu tempo. Que há-de regressar. Vivemos tempos rápidos. Desprezamos a calma. Por isso ignoramos a natureza e prezamos a ciência, onde alguns julgam encontrar todas as respostas. Hoje cada um busca o seu tempo. Mas também sempre foi assim. Quem controla o tempo detém o poder. Até à criação dos relógios no Ocidente eram os senhores da Igreja que controlavam o tempo, através do sino das igrejas. Os relógios uniformizaram o tempo, nas fábricas e nas estações de comboios. E a Revolução Industrial fez-se, organizando o trabalho de uma outra forma que não tinha a ver com o nascer e o pôr-do-sol. Uma nova classe dirigente nasceu. Foram os portugueses que levaram para a Ásia os relógios mecânicos. E Goa e Macau foram as janelas de entrada destes novos senhores do tempo. Em 1582 terão sido dois religiosos idos de Macau que apresentaram um relógio mecânico ao novo mandarim de Cantão. Na altura, segundo contam os relatos, na China dividia-se o dia em 12 horas e não em 24. Mas isso não impediu que os relógios tenham sido o grande salvo-conduto dos religiosos da Companhia de Jesus para terem acesso à corte imperial chinesa. Esse poder dos jesuítas, junto do centro de decisão chinês, é conhecido. Matteo Ricci, o mais conhecido dos jesuítas, terá ganho a permissão para que os religiosos vivessem em Pequim, onde eles introduziram a música, as ciências europeias aos chineses e, por outro lado, a cultura e ciência da China ao Ocidente. O seu trabalho na área da astronomia (que teve um epicentro em Pequim) ainda é hoje referência obrigatória para se entender esta ponte entre civilizações. Os relógios tornaram os jesuítas omnipresentes na China e acabariam por ajudar à permanência dos portugueses em Macau. É conhecida a história do padre Tomás Pereira que, chamado a Pequim pelo imperador Kangxi (da dinastia Qing), que construiu um enorme carrilhão com relógio, que foi colocado numa das torres da igreja dos jesuítas em Pequim. Tudo isto abriu as portas para a emergente relojoaria suíça (que o protestantismo consagrara como modelo de utilidade e não de exibicionismo) ao mercado chinês. A partir de finais do século XVIII a relojoaria suíça, servindo-se dos entrepostos comerciais ingleses no Império do Meio, tornou-se fornecedora de verdadeiras obras de arte para a corte imperial chinesa. Há uma particularidade muito interessante nestes relógios: eram fabricados aos pares, para se conformarem com o princípio filosófico do yin e do yang. Muitos artesãos chineses haveriam de se estabelecer no Extremo-Oriente nesses anos, até que a guerra do Ópio (1840-42) terminaria com este negócio florescente. Abrindo as portas para outros senhores do tempo. Que, com o tempo, cederam o poder a outros que julgavam o seu tempo duraria para sempre.

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