Os críticos e a crítica  

Hélder Beja

  1. Em português e inglês, a crítica de arte em Macau é praticamente inexistente. Temos os textos de Boi Luxo sobre cinema e mais um ou outro colunista esporádico no Hoje Macau; temos um livro de José Drummond sobre arte chinesa; e tínhamos, no Ponto Final, espaço para a crítica cinematográfica, literária e musical que muitas vezes ocupei e que, espera-se, possa voltar em breve.

Mesmo assim, em todos estes casos, é muito raro se não inexistente o autor que se debruce sobre a obra de artistas locais ou sobre espectáculos e exposições apresentadas em Macau. Fazem-se várias entrevistas, noticia-se a coisa mas não se vai além disso, não se pensa na praça pública posta ao dispor pelos meios de comunicação sobre o fruto do trabalho ou da preguiça, sobre a qualidade ou fragilidade dos novos filmes, livros, mostras e performances que por cá nascem ou aterram.

Haverá variadíssimas explicações para isto, a começar pela ainda reduzida dimensão da comunidade não falante de chinês; pela inevitável proximidade entre quem escreve nos jornais e quem cria ou organiza; e acabando na simples ausência de tradição no que toca à publicação de textos desta natureza.

  1. Não sendo letrado em chinês, custa-me afirmar que na imprensa em língua chinesa a inexistência de comentário crítico seja semelhante. No entanto, depois de várias conversas com atentos leitores chineses, julgo ter um retrato aproximado da realidade: há alguns colunistas que se debruçam sobre as artes, em particular sobre as artes de palco. São poucos e sente-se também na comunidade chinesa uma grande falta deste tipo de abordagem. Abordagem que possa por um lado servir para divulgar e despertar o interesse de novos públicos; e que, por outro, seja ela mesma uma forma (sempre subjectiva) de aferir o que é bom e mau, de escrutinar escolhas e deixar recomendações.
  1. Parece haver, da parte das instituições governamentais ligadas às artes, vontade de investir no comentário crítico e em autores que estejam interessados em explorar esse género jornalístico. Essa resolução é bem visível no apoio dado a jovens comentadores para seguirem eventos artísticos no exterior, assim como no programa do Festival de Artes que agora decorre – e que contempla (e bem) workshops de crítica de teatro e outros seminários directa ou indirectamente ligados a esta prática.

Pena que, ao tomar uma decisão acertada com a criação destas oficinas, a organização tenha decidido restringir praticamente tudo à língua chinesa. Numa cidade que quer à viva força ser um centro de turismo e lazer, é vital perceber a necessidade de comunicar para além da língua chinesa. Claro que esse é e será o maior mercado de Macau, claro que a língua portuguesa é e será residual, mas não entender, por exemplo, a importância de estender estes workshops a falantes de inglês é contemplar apenas um pedaço de uma tela muito mais vasta.

Acresce que a maioria das produções locais levadas à cena durante o Festival de Artes, sendo naturalmente faladas em chinês, não tem legendas em qualquer língua. Num festival de grandes méritos, esta é a maior crítica que pode e deve ser deixada à organização. Eu e muitos outros residentes e visitantes de Macau quereríamos ver e entender alguns desses espectáculos. Infelizmente não será possível.

  1. Seria bom que Macau pudesse ter – e certamente que não apenas em chinês – críticos de arte que produzissem pensamento crítico sobre a boa arte e o lixo que por aqui se vai fazendo. Da minha parte, não tendo grande pretensão a tal estatuto, comprometo-me a alinhavar do modo mais parcial e subjectivo possível umas quantas linhas sobre os novos filmes locais que aí vêm este mês, no Macau Indies. Não estando certo do poder de encaixe dos nossos prolíficos cineastas, apetece perguntar citando Paul Thomas Anderson: haverá sangue?
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