Orientalismo Interasiático e Filosofia para Crianças  

Ana Cristina Alves

Há muitas formas de orientalismo. Este não é apenas um olhar negativo sobre o outro. O termo também pode possuir a benéfica acepção de estudos sobre o Oriente.

Mas orientalismo é muito usado na coloração negativa, tendo sido aplicado a uma visão sobre o Outro, a partir duma posição do Mesmo ou mesmificante.

Neste caso, orientalismo pode ser definido como uma atitude e um olhar pouco abertos ao Outro. Quando o outro vem de longe talvez seja fácil de justificar essa falta de compreensão e empatia por modos existenciais diferentes…

Recentemente têm sido desenvolvidos estudos em torno de vários tipos de orientalismo, como por exemplo, os que chamam a atenção para o orientalismo interasiático, veja-se o de Pei Yin Lin, ou ainda os que analisam o orientalismo interno, tal como a conferência do Professor Everton Machado sobre as escritas femininas na Ásia Portuguesa de Propércia Figueiredo, Deolinda da Conceição, Maria Pacheco Borges e Vimala Devi. Esta palestra teve lugar no dia 5 de Maio na Universidade de Macau, tendo sido promovida pelo Departamento de Português/CIELA – Centro Internacional de Estudos Luso-Asiáticos.

Orientalismo interno ou interior? Orientalismo interasiático ou inteorientalismo? O certo é que estas nomenclaturas reflectem estados de espírito que revelam determinadas tendências culturais.

Tornemos as coisas um pouco mais claras com exemplos concretos. Os portugueses não pensam todos bem uns dos outros. Entre nós gente há bastante crítica e autofágica, nomeadamente no que se refere aos estudos chineses. Por mais que se faça, nunca teremos para alguns estudos sinológicos… Esta postura poderá ser classificada de Ocidentalismo Interno?

Talvez, se considerarmos que na base destes juízos de valor está uma visão depreciativa dos portugueses em relação a si mesmos. No fundo, para determinados lusitanos ou, alargando até todo o espaço da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, somos um bando incapaz que nem sequer consegue desenvolver estudos sinológicos, por falta de força de vontade, preguiça, e por assim por diante. Esta é claramente uma posição ocidentalista, emitida por ocidentais sobre os seus irmãos de cultura.

Alegremo-nos que não estamos sozinhos na desvalorização sistemática de nós próprios. É um fenómeno reconhecido em toda a escala humana, ainda que com mais incidência em povos inibidos por longas histórias de despotismo político, religioso entre outros.

Os chineses não escapam à regra. Também os há pouco doces e suaves nas classificações. Embora sejam todos chineses, há uns mais do que os outros. Aos menos chineses, é-lhes atribuído um estatuto mais infantil. Tal postura vem de longe. Já nos Analectos (《論語》) de Confúcio (孔子), compilado pelos discípulos do Grande Pedagogo com os seus dizeres, este comparava as mulheres às crianças e aos homens inferiores.

Portanto na tradição confucionista chinesa quando se pretende desvalorizar alguém, “reduz-se” a pessoa à sua expressão infantil, já na taoísta, a que menos influenciou do ponto de vista da organização social, se valoriza e glorifica o estado infantil, como o mais puro e próximo da natureza.

Recordo então as palavras de certo professor chinês. Este, numa tentativa de me introduzir à mundividência chinesa, afirmava que muitos dos seus compatriotas eram crianças, por isso não tinham postura cívica ou política definida. Ou gostavam das pessoas, e aí eram duma dedicação extrema, ou as aborreciam, sem que quaisquer princípios racionais dirigissem os seus afectos.

Exemplificámos brevemente o que são atitudes orientalistas e ocidentalistas nas suas vertentes negativas. Elas traduzem, quando são proferidas de dentro, um profundo desencontro e afastamento do cenário cultural em que se está mergulhado.

Interorientalismos e orientalismos interiores à parte há uma belíssima filosofia das crianças e para as crianças que é preciso dar a conhecer e desenvolver. Uma linha de pensamento e de acção onde se manifesta que as crianças não são adultos pequenos e, como tal, têm os seus modos próprios de expressão psíquica e física. Daí que faça todo o sentido uma literatura infantil. E não apenas contos e poemas que de para crianças só têm o título.

As crianças têm uma lógica própria, não são adultos em miniatura e por isso merecem que se lhes estude a sua filosofia, tal como sucede nos poemas para crianças 《給孩子的詩人, coligidos por Beidao (北島), onde o poeta teve o cuidado de mostrar um pouco do funcionamento da lógica infantil, escolhendo poemas de todo o mundo muito naturalistas e concretos, com verdadeiros hinos a certos elementos naturais, por exemplo, as ondas, o sol, a lua, o mar e as montanhas, mas também enaltecendo amores e afectos, no que têm de mais suave, delicado e repetitivo. Nestes poemas sobressai o amor à natureza, o espírito lúdico que se traduz no jogo de palavras, a partir da escolha de um ser afectivo, que pode ir do elemento natural a um qualquer ser inanimado.

Os poemas para crianças cantam ainda o espírito de aventura e descoberta tantas vezes estimulado nas e pelas poéticas advinhas chinesas, além de desenvolverem duma forma concreta e lúdica a lógica de complementaridade que rege todo o pensamento como deve ser, chinês incluído.

Aqui fica um poema do poeta taiwanês contemporâneo (1930-2010) Shang Qin (商禽), intitulado Pensando com os pés (用脚思思). Este enaltece os valores lúdicos que presidem à constituição de uma verdadeira filosofia e literatura para crianças. E, se me é permitido acrescentar, para crianças e adultos que queiram recuperar uma visão ecológica, interligada, delicada e amável da existência.

用脚思想

找不到脚                   在地上

在天上                         找不到頭

我們用頭行走             我們用腳思想

虹                                   垃圾

是虛無的橋               是紛亂的命題

雲                                   陷阱

是飄渺的路               是預設的結論

在天上                       找不到頭

找不到腳                     在路上

我們用頭行走           我們用腳思想

(2015: 111)

À laia de remate e enaltecimento da filosofia para crianças, que todos podíamos praticar, aqui fica a minha tradução:

Pensando com os Pés

Na Terra                                 não encontro os pés

No Céu                                     não descubro a cabeça

Usa-se a cabeça para andar       os pés para pensar

O arco-íris                                    o lixo

Uma ponte suspensa em nada         uma conversa atrapalhada

A nuvem                                             o poço armadilhado

A estrada enevoada                         o plano bem-formado

No Céu                                              não encontro a cabeça

No caminho                                             não descubro os pés

Usa-se a cabeça para andar                 e os pés para pensar

Bibliografia

北島選編2015 《給孩子的詩》香港:香港中文大學

Pei—Yin Lin. 2012. Translating the Other: On the Re-Circulations of the Tale Sayon’s Bell, in China and Its Others. Knowledge Transfer through Translation, 1829-2010, James St. André, Peng Hsiao-yen. (ed)

Amsterdam, New York: Editions Rodopi B. V.

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