Tribunalmofada

Na semana passada, estive num tribunal de Macau onde supostamente iria decorrer um julgamento com interesse para os nossos leitores. A audiência estava marcada para as 10h30.

Lá chegando um pouco antes da hora marcada, começo a ouvir a história de um caso que estava a ser julgado antes, enquanto não começava o que me interessava. O juiz foi chamando, uma após outra, as pessoas que iam testemunhar. Em frente ao magistrado e de costas para o público, quatro jovens réus aguardavam impacientes o desenrolar do processo, sendo chamados a pronunciar-se aqui e além. Do diálogo entre as várias testemunhas e a procuradora, o advogado e o juiz, foi dando para perceber o seguinte: que a vítima era um rapaz que afirmava ter sido agredido a pontapé ao sair de um bar de karaoke; que os réus eram rapazes sensivelmente da mesma idade da vítima que teriam participado nas agressões; e, mais significativo, que o caso já se tinha passado há muuuuuuuuuito, muuuuuuuuuuito tempo!…

Para dar uma ideia mais precisa, deixo aqui a inquirição do juiz a uma das testemunhas, um dos agentes da PSP que efectuaram as detenções no local do crime:

– Jura dizer a verdade e tal?

– Juro, juro!

– É capaz de identificar entre esses quatro jovens algum que tenha estado envolvido nas agressões?

– Ehhhr… Acho que o da camisa azul com as letras cor-de-rosa.

– Acha ou tem a certeza?

– Não tenho bem a certeza, mas acho que a cara dele não me é estranha.

– Ó, diabo!… Então e dos outros, não se lembra? Olhe lá para eles outra vez.

– Talvez o de camisa preta. Não me lembro ao certo, senhor juiz. Eles na altura ainda não tinham cabelos brancos…

– Tá bem. Obrigado. Pode ir à sua vida…

Várias pessoas foram ouvidas, com depoimentos tão esclarecedores como este. No final, a sentença ficou adiada para outro dia.

A seguir, um outro caso, envolvendo um casino e um grupo de trabalhadores. E depois, mais um, com um diferendo entre um senhorio e um inquilino… Quanto à história que me tinha levado ali, tudo indicava que só a iria poder ouvir depois do almoço, às 14h30.

Fui comer à Vencedora, o simpático botequim onde o caldo verde se faz acompanhar de um português bonito, quase cantado e à hora marcada ali estava de novo no tribunal. Passada meia-hora, começam a chegar os advogados, alguma assistência. O juiz, esse, só apareceu uma hora depois. Entrou perante uma saraivada de sobrancelhas reprovadoras, e pediu desculpas – simpaticamente – pelo atraso. O que já é muito, se pensarmos bem. Se eu fosse juiz, fazia bem pior do que ficar uma hora a mais do que era suposto a saborear o meu conhaque e o meu charuto a seguir ao almoço. O homem é juiz, caramba! Ele é que manda.

Reatada a sessão, havia ainda dois casos para serem julgados antes do “meu”, pelo que decidi regressar à redacção, onde poderia ser mais útil. Resumindo: fui ao tribunal em busca de uma história e voltei para a redacção de mãos a abanar, mas, pareceu-me, não tanto como as de quem ali vai em busca de justiça.

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