“Flâneur” e tanto

“Flâneur” e tanto

[Rosa de Porcelana]

Filinto Elísio

Algo mais que simples “flâneur”

Não quero mudar de pele. Nem quero transpor a epiderme de sentir o Mundo e as ilhas. Sou de molde (já que tudo nos emoldura no coração) cabo-verdiano, cidadão do Mundo. Ou seria do Mundo, cidadão de Cabo Verde, como insiste o meu passaporte. De sorte, roça nesta pele o alvor da Primavera e o pavor subjaze dos vários interstícios. Flores e pássaros, burlescos olhares e frescos ventos à mancheia. Algo mais que  simples “flâneur”…

Liberdades

Cabo Verde, segundo a Freedom House, está em 48ª posição em termos da liberdade de imprensa no mundo. O País continua a ser o melhor colocado, entre os países africanos de língua portuguesa. Confesso que este novo retrato me soube a pouco. Algo me diz que devíamos e podíamos estar melhores, ambiciosos que somos neste domínio das liberdades. Em verdade, já estivemos melhores, tanto na ponderação global, como na ponderação africana. No referente à Lusofonia, não nos satisfaz mesmo estar ao nível de Portugal, na 25ª posição. Já estivemos antes em parelha, quase ex aequo, mas queremos ganhar a competição das liberdades. Não tendo escala para ativar o desenvolvimento pelo pesado e pelo tangível, Cabo Verde terá de continuar a aprimorar o seu desempenho intangível  em termos da educação, da cultura e das liberdades – todas, inumeráveis. Se há fator do Desenvolvimento, ele o é Democracia, em mais lato senso.

A voz da vez

Agora, virou modal, moda e modo, dizer-se que o País (para a tarefa de o conduzir) é deste ou daquele segmento. Em verdade, vejo o País como a parábola do poeta brasileiro Castro Alves, em como a praça é do povo/como o céu do condor. Embora haja assim dito e redito,  com assonância e ressonância, eu ficarei pela dissonância. De resto, a vez não se compadece com ambiguidades. Levante-se-nos (nesse vai ou racha) o véu das coisas. Vez? Ninguém, absolutamente ninguém, como dono da vez. Incongruente sê-lo, como natural não o ser. Por conseguinte, a vez será amiúde dos jovens e dos menos jovens, dos homens e das mulheres, dos ricos e dos pobres, à esquerda e à direita dos gregos e troianos (aforismo do eu, tu e o rabo do tatu). A vez que, sem realidades escondidas, estará na voz de todos. Nos valores mais altos que se nos alentam. Tal como o céu é do condor!

Crónicas Desaforadas

Não me cabe deste livro fazer explanações ou indicar quais os textos em que João Branco melhor se realiza. Dir-vos-ei que ele, não sendo cronista linear e simples, põe-se exigente na construção de sua própria linguagem. Para além do aflorar das suas indignações de cidadão, a palavra lhe sobressai como seu material de construção. Os temas, às vezes como necessidade de compreender o seu entorno, outras vezes como forma de expressão do pensar coletivo. O arremate dos seus textos como formulação do estilo. O estilo como possibilidade de um modo concreto do seu participar no Mundo, em Cabo Verde e em São Vicente, decantação não necessariamente hierárquica. Se o teatro, de longe, parece ser o seu supremo campo de domínio, a crónica nele se revela como um domínio relevante e que, a cada dia, lhe vem à dianteira pela qualidade da escrita e pela ousadia, qual equilibrista por fios de arame e sem redes de apoio. Todos os públicos, inclusive de Macau, precisariam ler este livro.

Primavera 

Bem que poderia escrever sobre a Primavera. Sobre o encanto das flores e o acalanto dos pássaros, da temperatura amena na nossa pele de sentir o mundo. Todavia, no caleidoscópio do meu pensamento, sofro as travessias no Mediterrâneo, o infortúnio dos nepaleses e o medo dos moçambicanos na África do Sul.  Poderia escrever sobre Cabo Verde, sobre o qual jamais deixo de ter opinião consequente. Apenas, exercendo a minha cidadania e fazendo-o com alguma utopia, querendo algo mais avançado e qualificado. Uma sociedade de cidadãos livres, um Estado respeitador das liberdades individuais e dos direitos sociais fundamentais, uma democracia pluralista e parlamentar, uma economia de mercado sem monopólios e privilégios e uma justiça rápida e eficaz. Nicos Poulantzas, filósofo de Atenas (também ele “flâneur” e tanto) falava da “via democrática para o socialismo”. Creio que tal faria sentido. Ou não?

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s