O que são os talentos?  

[Activo Estratégico]

Patrícia Silva Alves

As políticas de Macau baseiam-se em palavras de ordem (não confundir com política porque essa vem de fora) que sintetizam uma ideia e parecem demonstrar um caminho para o futuro. Dois exemplos: diversificação (repetida 40 vezes no relatório das Linhas de Acção Governativa entregue pelo Chefe do Executivo aos deputados) e talentos (repetida 21 vezes).

No entanto, e apesar de serem palavras, valem sobretudo pelo seu som e não pelo seu significado. São expressões que não comprometem, não revelam e não dizem nada. São como o manto da invisibilidade que se desejaria ter quando se é apanhado em falso e se quer desaparecer no segundo seguinte. São um escudo protector contra terceiros, aqueles que fazem perguntas e aguardam por uma resposta.

Macau, com uma área de pouco mais de 30 quilómetros quadrados, tem quatro grandes universidades. Quando o Governo afirma que é preciso formar talentos está a dizer que é preciso ter mais formações além daquelas já dadas por estas instituições? Está a dizer que o sistema de ensino não está a funcionar?

Na lista online disponibilizada no site da Comissão de Desenvolvimento de Talentos vemos que o Governo identificou 5567 potenciais talentos. Mas de que áreas de formação são estas pessoas? Não sabemos.

Olhar para a legislação publicada a propósito da Comissão de Desenvolvimento de Talentos também não ajuda a esclarecer: até agora, os regulamentos aprovados dizem respeito apenas à delegação de competências no secretário-geral da entidade, à designação dos seus membros e à criação da comissão.

A apresentação das finalidades da entidade também não esclarece mais: sabe-se apenas que a palavra “talentos” é um sinónimo de “quadros qualificados”. Sobre as áreas em que é preciso ter melhores profissionais apenas se fala de “Centro mundial de turismo e lazer” e “plataforma de serviço comercial entre a China e os países de língua portuguesa”, mas atendendo a que Macau já tem várias faculdades a dar a formação nesta área, não se percebe, então, o que falta.

No fundo, o Governo trata esta questão da formação de talentos como um senhorio que quer arrendar uma casa cheia de humidade: pinta as paredes para parecer que resolve um problema de infiltrações, mas a água continuará a escorrer.

É que se as escolas do território estão a falhar na formação de quadros, há-que resolver essa lacuna e não criar uma camada adicional de opacidade e mais uma palavra de ordem que, na verdade, nada diz. Nem sobre o passado, sobre o que se quer do futuro.

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