Do café a preço de ouro a uma epidemia de mosquitos, todos pagam pela falta de transparênci

[Res Publica]

A convite de um grupo de alunos, visitei o novo campus da Universidade de Macau (UMAC) na ilha da Montanha para dar apoio à organização de um evento. Por sentir que precisava de uma dose de cafeína para me sentir desperto, desloquei-me à única cafetaria das novas instalações. Pedi um “duplo espresso” e nem a boa vontade de uma aluna, que apresentou o seu cartão de estudante para que me fosse concedido um desconto de 30 por cento, mitigou a minha indignação: mesmo a custar menos 30 por cento, um “duplo espresso” é mais caro no novo campus da UMAC do que no Starbucks da Universidade de Hong Kong. Poucos serão os que associam em termos imediatos o preço do café à falta de transparência no seio de uma universidade que se diz de “gabarito mundial”. Ainda assim, todos temos de reconhecer que, em última instância, cabe-nos a nós suportar o custo das decisões tomadas pelo governo à porta fechada.

A decisão de transferir a Universidade de Macau da Taipa para a Ilha da Montanha foi tomada pouco depois de Zhao Wei ter assumido o cargo de reitor. Na primeira proposta para a relocalização avançada pelos responsáveis pela instituição de ensino superior, a Universidade da Montanha iria pura e simplesmente mudar-se para Zhuhai e operar sob jurisdição da República Popular da China, ainda que mantendo “as características e os níveis de qualidade de Macau”. Na altura, na qualidade de aluno do terceiro ano de uma das licenciaturas ministradas pela Universidade, desafiei numa reunião magna o reitor a garantir que a liberdade académica seria preservada. Os anos que Zhao Wei passou nos Estados Unidos da América capacitaram-no para usar uma linguagem aparentemente democrática, criando a ilusão de que o processo de transferência das instalações seria feito de forma aberta e teria em conta a opinião dos alunos e da população. Zhao garantiu na altura que a mudança para Zhuhai não era mais do que uma “sugestão” , asseverando estar aberto a outras opiniões.

Pouco tempo depois, o Governo Central deu luz verde à criação de um enclave académico na Ilha da Montanha. O que mais me surpreendeu no anúncio foi o facto de ninguém estar até então ao corrente da existência de uma proposta nesse sentido. A única reacção construtiva com que pudemos avançar foi a de dizer, intuitivamente não, a qualquer proposta de mudança para Zhuhai e para a China Continental. Assumiu-se que a população de Macau concordava de boa vontade com um investimento de milhares de milhões de patacas a ser feito em território chinês por uma empresa do Continente. A possibilidade, anteriormente aventada, da Universidade erguer um novo campus em terrenos reclamados ao mar – projecto que presumia a construção de túnel subaquático, com um astronómico custo de dois mil milhões de patacas – foi pura e simplesmente eliminada, sem ter sido sequer submetida a discussão.

Numa fase posterior da iniciativa, os membros da UMAC foram convidados a pronunciar-se sobre as necessidades que deviam ser tidas em conta na concepção do novo campus. Mal o período de consulta pública foi dado por encerrado, a Universidade apresentou uma maquete das novas instalações. Não é necessário ser-se um génio para se associar uma consulta pública sobre a matéria a um plano arquitectónico. Eu fiz a associação e terão sido muitos os que a fizeram.

Cedo se percebeu que os corpos de água seriam uma característica importante do plano de desenvolvimento urbanístico do campus da Ilha da Montanha. Quem vive em Macau sabe que charcos e pequenos lagos constituem o ambiente perfeito para a proliferação de mosquitos. Não tive oportunidade de me pronunciar sobre a matéria quando a transferência das instalações foi unilateralmente anunciada pela UMAC, sem que houvesse lugar à reavaliação da decisão. Agora são os estudantes quem sofre com a mudança: importunados pelos mosquitos, os alunos quase não dormem.

Por fim, e para encerrar a questão arquitectónica, no início de 2013 denunciei o que considerei ser o gravíssimo acto de plágio cometido pelo arquitecto responsável pelo projecto, que tentou recriar na Ilha da Montanha o campus da Universidade de Auditoria de Nanjing.

Com uma estrofe que glorifica “o amor pelo país (a China)”, o hino da Universidade fez com que se tornasse difícil para mim referir-me à Universidade de Macau como a minha alma mater. A exemplo do que sucedeu com a consulta sobre “as necessidades a suprir com o novo campus”, a UMAC organizou um concurso para angariar “elementos” que pudessem ser integrados na letra do hino da instituição. Nenhuma das propostas vencedoras acabaria por ser escolhida para o efeito e a autoria da letra foi consignada a Daniel Tse, presidente do Conselho da Universidade. Que necessidade havia, então, de se organizar um concurso? Os “elementos recolhidos” na competição terão sido incorporados por Tse na letra, sustenta a Universidade. É certo e sabido que a questão do gosto e da estética variam de pessoa para pessoa, mas, no meu entender, a letra do hino suscitou mais reacções negativas do que positivas.

Um dos estabelecimentos de restauração do novo campus tem o pomposo nome de “Food Paradise”. Com designações menos faustosas, este e todos os outros restaurantes das novas instalações da Universidade de Macau são explorados pelo grupo Future Bright, do deputado Chan Chak Mo. Nenhuma das entidades que servem refeições prontas no campus da ilha da Montanha enfrentam verdadeiramente concorrência. Perdoem-me se pareço nostálgico, mas sinto falta das iguarias servidas na cafetaria da biblioteca do antigo campus. O espaço era para mim um refúgio entre aulas quando estudava na Universidade e que fique claro que não fui pago para tecer estas considerações.

Agora, a hedionda lasanha servida nas novas instalações fazem com que perca o apetite. Nem sei o que seria de mim se, enquanto estudante, a refeição fosse a única opção disponível dia após dia. Os resultados da falta de transparência nos processos fazem-se visíveis nos pratos dos alunos da instituição.

Quando as decisões são tomadas à porta fechada, todos pagam a factura. Vai continuar calado enquanto o governo decide nas suas costas?

Jason Chao

Activista politico e líder do grupo Consciência de Macau

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2 thoughts on “Do café a preço de ouro a uma epidemia de mosquitos, todos pagam pela falta de transparênci

  1. Pingback: From Pricey Coffee to Mosquito Outbreak, Everyone Pays for the 'World-class Non-transparency' - Access Granted - Jason Chao's pressroom

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