Jornalismo cão de guarda, jornais colaboradores

ULTIMATUM

Isadora Ataíde

A imprensa periódica nas então colónias portuguesas emergiu a partir da década de 1820, a começar pela Gazeta de Goa, em 1821. Os jornais dos territórios coloniais, a acompanhar a imprensa Oitocentista de Portugal, tinham como marca registada o seu perfil político: eram um espaço de contestação dos governos, uma plataforma dos conflitos entre os grupos políticos, uma base para as reivindicações sociais e um meio privilegiado para as denúncias sobre os abusos cometidos pelo sector público e pelos interesses privados.

Ou seja, também nas então províncias ultramarinas portuguesas, a imprensa emergiu e desenvolveu-se a desempenhar o papel que se tornou a essência do jornalismo: actuar como um cão de guarda em defesa dos interesses sociais comuns e a denunciar as irregularidades e abusos dos governos e de privados.

Em Cabo Verde, entre 1880-81, saiu o semanário Imprensa, que denunciou casos de funcionários públicos que desenvolviam actividades privadas e acusou o Governador de abuso de poder.

Em Angola, em 1894, circulava O Imparcial. Em Junho deste ano o jornal relatava que o inspector encarregado da sindicância à câmara municipal de Luanda regressava a Lisboa: “Diz-se que nada foi descoberto, mas Júdice da Costa tem um lustre igual ao da sala de sessões da câmara municipal e móveis feitos de madeiras e por marceneiros compradas pelo Estado”.

Em São Tomé e Príncipe apareceu em 1909 O Africano, Semanário Independente. Em Maio daquele ano o jornal apontava a “falta de competência” do Terreiro do Paço, que “desconhece e não resolve os problemas das ilhas… num regime de favores e de convenções mentirosas, alheio a toda a manifestação da vida progressiva do povo que trabalha, quer na metrópole quer no ultramar, não podemos esperar nada sem uma transformação radical nas camadas dirigentes”.

Na Guiné, onde a imprensa não oficial apenas apareceu na década de 1920, o semanário Ecos da Guiné denunciava que “O Ministério das Colónias tem muitos afilhados que contentar… Para se mascarar um pouco essa padrinhagem mandam-nos prestar serviços nas colónias”.

Em resposta a tais denúncias, as autoridades não hesitavam em censurar e suspender os títulos, para além de perseguir, prender e desterrar os jornalistas.

Em Moçambique, o primeiro jornal independente, O Progresso, em 1868, durou apenas uma edição. Foi suspenso por noticiar um caso judicial que envolvia os interesses do Governador. Este, insatisfeito, instituiu a censura, obrigando os jornais a remeter uma prova para receberem o visto antes da sua impressão.

No entanto, a principal estratégia dos governos das colónias era estimular e financiar jornais que defendessem os seus governos e interesses. Raul Dias, historiador da imprensa portuguesa, relata que o África Oriental (1883), também de Moçambique, “tinha características governamentais, pois dizia bem de todos os governadores da província a propósito de tudo e de nada”.

O Progresso, que saiu em Angola a partir de 1913, foi um forte aliado de Norton de Matos. Quando o Governador deixou a colónia no fim do seu primeiro mandato, em 1914, o jornal sublinhava “o muito que a província lucrou com a acção ponderada, enérgica, criteriosa e sábia do seu ilustre Governador Geral”.

Em contraposição ao exercício jornalístico cão de guarda tem-se o jornalismo colaborador. Este, tem como característica fundamental dar o seu apoio às políticas dos governos e defender os interesses de grupos privados. Tal suporte não é um exercício ideológico, o jornalismo do tipo colaborador escreve com uma mão e recebe com a outra.

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