Um passeio pelo campo

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

Na generalidade há no cidadão português sempre uma vontade de nos dias de folga querer ir passear fora do centro da cidade.

Chega ao fim-de-semana, em especial ao domingo e lá vão os carros a circular a baixa velocidade pelas marginais junto aos rios ou ao mar ou lá seguem em filinha – com nada mais do que a terceira velocidade metida – em direcção ao ar puro do campo. O “trânsito de domingo” é uma realidade e só causa enervação aos que, infelizmente, nesses dias têm de ir trabalhar.

Desde que me mudei para Macau e apesar de o espaço ser muito mais limitado há um hábito que ainda não deixei: dar esse belo passeio pelo campo.

Haja raio de sol ou não lá vou eu rumo ao sítio mais longe de casa para um breve encontro com a vegetação e a “calmaria” do campo. A descontracção da folga sai comigo de casa e acompanha-me pelo caminho até chegar à vila de Coloane.

Na primeira voltinha pela vila à procura de estacionamento ainda há uma pequena esperança que seja à primeira que vou encontrar lugar. “Hoje é o meu dia de sorte”, penso sempre, enquanto recorro ao que muitos chamam Lei da Atracção, pois dizem que se pensar que vou arranjar lugar, esse lugar vai surgir num ápice.

Não sei se não estou a exercer força mental suficiente, mas a verdade é que nem à segunda volta, normalmente, consigo arranjar lugar e a descontracção da folga começa a esgotar-se com as voltinhas e voltinhas dentro do carro.

Teorias e leis excêntricas à parte, a realidade é que em Coloane os poucos lugares de estacionamento que existem estão ocupados por carros abandonados. Nos lugares reservados para o efeito existem carros parados há meses a acumular pó, que nem multados são, e parecendo ter lugar cativo. Nos restantes espaços livres há uma linha amarela e um polícia que se passeia de um lado para o outro e nem permite que se abrande junto ao passeio.

A paciência muitas vezes esgota-se e acabo por seguir montanha acima para estacionar e caminhar a pé. E se a opção do passeio não for os trilhos de Coloane andamos num passeio de obstáculos onde mais carros abandonados ladeiam as estradas.

Surpreende-me que se faça tão pouco em relação a isto. Surpreende-me a falta de tolerância por aqueles que, nas barbas do polícia, encheram a barriga do parquímetro até ao máximo, com quatro patacas. Se se demoram cinco minutos mais para lá do limite, não escapam a uma multa 100 vezes maior que as míseras moedas usadas para pagar o estacionamento.

Lamento que os passeios pelos campos do território sejam cada vez mais entre latas velhas do que entre árvores, veja-se o exemplo também nas montanhas da Taipa, lugares de preferência dos monos de quatro rodas.

É claro, que se pode remediar a situação, indo passear de autocarro – e sempre ficamos com a sensação que o território é maior pelo tempo que demoramos a chegar ao destino – mas parece que essa resolução é mesmo aquilo a que o português chama “tapar o sol com a peneira” e que em Macau é uma prática tão comum.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s