ELES NÃO VOLTARÃO

Márcia Souto

Sentimento do Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor.

(…)

Eles não devolveram nossas meninas, na verdade, ao que tudo indica, não se comoveram em nada com a campanha recheada de figuras mundialmente importantes. Eles não as devolveram. Eles não as devolverão. Eles não as devolverão por muitos motivos, inclusivamente os impensáveis. Eles não as devolverão, pois já são elas outras, ou tristes esposas precoces, ou escravas-mirim, ou crianças-soldado, ou mortas, simplesmente desaparecidas.

Não conhecerão o desejado eldorado europeu as centenas (ou milhares) de homens, mulheres, crianças, todos esquálidos e sonhadores. Eles não pisarão em Lampedusa, nem de longe será avistada a bela ilha italiana, tão perto da África, mas tão improvavelmente longe da realização da fantasia de viver num lugar sem guerra, sem perseguições religiosas, políticas e tantas outras. Tão longe do que a vida os tem relegado. E este Mediterrâneo reluzente acaba por sepultar tantos homens, mulheres, crianças… tantos sonhos…

Quando os corpos passarem,

eu ficarei sozinho

desfiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microscopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados

ao amanhecer

Não voltarão para dormir em casa os etíopes cristãos cuja última imagem foi de um ruidoso mar em qualquer lugar da desmantelada Líbia. Não voltarão para casa os também cristãos egípcios mortos no deserto. Igualmente não retornarão com a féria, que certamente alimentaria a família, trabalhadores afegãos.

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

Não voltará alegre e orgulhosa a exibir os diplomas a centena e meia de jovens quenianos. Eles não acordarão do pesadelo que lhes roubou a vida naquela madrugada sangrenta. Eles não poderão, depois de formados e cheios de utopia de paz, explicar ao mundo que é desumano matar em nome de deus.

Não voltarão para o seu país os moçambicanos mortos na África do Sul. Esses não poderão mais, de peito aberto, repudiar a xenofobia. Esses não regressarão ao seu país, como muitos seus compatriotas estão sendo obrigados a fazer neste momento. Eles não poderão responder ao rei zulu, dizendo sobre os motivos pelos quais escolheram a nação vizinha para viver. Quem sabe até o tenham feito pela esperança veiculada por Nelson Mandela.

Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço

que me perdoeis.

Muitos não voltaram, muitos não voltarão. E os que ficam, nós, os sobreviventes, vemo-nos trazer para a cama à noite o medo de multiplicar-se o número dos que não voltam. E, confusos diante de tanta imprecisão, tememos o amanhecer, esse amanhecer / mais noite que a noite.

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