Os mortos que ninguém chora

[Activo Estratégico]

Patrícia Silva Alves

Em menos de duas semanas mais de mil pessoas terão morrido afogadas às portas da Europa em dois naufrágios distintos. Todas tinham um objectivo comum – ter uma vida melhor – e mesmo sabendo que navegavam para a morte, quiseram persegui-lo. Não se trata portanto de um acidente, mas de uma infinidade de tragédias, repartidas por cada um dos que almejando melhores condições, jazem agora no Mediterrâneo. Porque quando arriscar a morte no mar é melhor opção do que ficar em terra percebemos a dimensão da escolha que fizeram: os que morreram não eram apenas emigrantes – como muitos de nós aqui, em Macau – à procura de uma vida melhor. Eram pessoas desesperadas para quem a morte era já, de certo modo, um dado adquirido.

“Mesmo que os Governos europeus decidissem afundar os barcos com migrantes, haveria ainda quem arriscasse a travessia, porque muitos consideram-se já mortos”, disse ao “The Guardian” Abu Jana (nome fictício), sírio que se preparava para sair do Egipto rumo à Europa. Ficar na Líbia ou no Egipto, de onde embarcam, é não ter emprego, cair nas mãos dos traficantes ou, pior ainda, enfrentar guerras e conflitos sectários que transformam todo e qualquer capital de esperança numa promessa de morte.

Por isso arriscam, como se se tratasse de um enorme suicídio colectivo. São milhares, os migrantes desesperadas que morrem sem uma mão estendida perante a indiferença dos europeus.

O naufrágio de ontem – 700 pessoas desaparecidas – será já a “maior tragédia de sempre no Mediterrâneo”. Mas convém acrescentar ao trágico balanço as outras 900 que terão morrido no mesmo percurso desde Janeiro e até à semana passada, segundo as agências de protecção de direitos humanos. Ao todo, podem ser assim 1600 vítimas.

O factor proximidade – que tantas vezes usamos para dar mais atenção a uma notícia do que a outra – é falso aqui. Estas pessoas morrem a quilómetros de algumas das paradisíacas praias mediterrânicas, sob o olhar indiferente dos que vão a banhos. Mais próximo é impossível. Uma fotografia – de emigrantes africanos a trepar pelas redes de um campo de golfe em Marrocos na esperança de encontrar abrigo em território espanhol – vale por mil palavras. São pessoas reais, com os mesmos sonhos que nos mobilizam, mas são tratadas como diferentes. Porquê? Porque têm uma cor de pele diferente. Porque usam lenços na cabeça. Estamos no século XXI, mas o racismo subsiste.

Em 2013, data do primeiro naufrágio de grandes proporções no Mediterrâneo, morreram pelo menos 360 pessoas. O incidente levou as autoridades europeias a lançar a operação “Mare Nostrum” que salvou 170 mil pessoas ao largo de Itália ao longo desse ano e de grande parte de 2014. A “Mare Nostrum” foi suspensa no último Outono. A substituta, a operação europeia Tristão, que tem menos meios humanos e financeiros, foi criticada pelas organizações internacionais por ser menos eficaz. Vê-se agora o resultado do desinvestimento.

Em 2013, o Papa Francisco escolheu Lampedusa para a primeira viagem apostólica do seu pontificado. A aposta revelou-se acertada: “Quem, entre nós chorou por esta situação ou por situações como esta? Quem chorou a morte destes irmãos e irmãs? Quem lamentou as mortes destas pessoas que viajavam nos barcos? Pelas jovens mães que trouxeram os seus filhos? Por estes homens que procuravam apoiar as suas famílias?”.

E acrescentou: “Somos uma sociedade que se esqueceu da experiência de chorar, de ‘sofrer com’. A globalização da indiferença roubou-nos a capacidade de chorar”.

O Papa disse estas palavras em 2013. Entretanto morreram milhares de pessoas. Quantos mais terão de morrer até que algo mude?

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s