“Vamos brincar ao ar livre?”  

[Água mole em pedra dura]

Catarina Mesquita

O João estava sentado no parque a baloiçar as pernas com um ar abatido. Pelo seu ar derrotado pensei que se tivesse magoado a jogar futebol ou já estaria exausto de correr atrás da bola com os amigos do parque. Porém, com seis anos, o pequeno João estava apenas aborrecido porque como ele dizia “não tinha nada para fazer ali”.

“Algo de errado se passa”, pensei. “Como é que aos seis anos uma criança dentro de um parque afirmava com todo o desespero que cabe dentro do seu pequeno esqueleto que está aborrecida?”

Não tenho uma memória gigante que me faça recordar como foram os 365 dias do meu sexto ano de vida, mas lembro-me de que estar na rua ao ar livre, rodeada de outras crianças, causava-me tudo menos aborrecimento. Aos seis anos saía da escola e passava por um jardim onde aquelas flores amarelas a que chamávamos “azedas” – porque quando as chupávamos sabiam a azedo – serviam para eu fazer “sopa de flores”, que temperava com um bocadinho de terra e, com sorte, se tivessem regado a relva à pouco tempo, a água das poças tornava-se o ingrediente principal do meu pitéu da natureza.

Regularmente, apesar das chuveiradas valentes que a minha mãe me dava, tinha a parte debaixo das unhas cheias de terra. E os meus amigos também, porque todos adorávamos mexer na terra.

Enquanto pensava nisto lembrei-me de entreter o João a jogar à “sardinha” para reparar nas suas mãos. Os dedos estavam imaculados. Não haviam vestígios de relva nem de terra. Talvez apenas as impressões digitais dos polegares estivessem um pouco gastas de carregar nos botões da Playstation.

Sentados num banco do Parque Central da Taipa, comecei a perceber melhor a frustração do João. Mesmo que com toda a sua energia ele quisesse correr na relva, sujar os joelhos de verde e atirar-se para o chão para fingir uma grande penalidade no seu campeonato de futebol imaginário, ele não podia.

À nossa frente a placa era explícita: “Não pisar a relva”.

O aborrecimento do João era mais do que uma birra. O aborrecimento do João era de uma criança que queria simplesmente correr, gritar, inventar e rebolar num sítio que dificilmente se encontra em Macau a não ser no recreio da escola.

É certo que nem todas as cidades do mundo estão preparadas para os habitantes mais novos. A tendência hoje é fechá-los em frente aos televisores, aos computadores e ligá-los aos “iTudo-e-mais-alguma-coisa”, igualando os dias de sol aos dias de chuva em que não se pode brincar lá fora. Mas esta tendência em tudo me parece trazer aspectos negativos. Encolhemos os ombros quando ouvimos a criança da cidade dizer “os ovos vêm do supermercado”, como se isto fosse normal só porque ela não está a ser educada no campo.

No Parque Central da Taipa inaugura-se esta semana uma biblioteca com um belo espaço dedicado às crianças – certamente onde há livros com imagens de galinhas e de ovos – e que, segundo o presidente do Instituto Cultural, tem um ambiente envolvente bastante agradável. Elementos da natureza não lhe faltam é certo, mas se um criança quiser brincar no mesmo parque num dia de sol, tudo se torna uma verdadeira odisseia: não é permitido pisar a relva, os seguranças estão sempre a condicionar qualquer corrida e há obstáculos à brincadeira por todo o lado que chegam mesmo a pôr em risco a segurança das crianças.

Macau é assim. Uma cidade cheia de crianças e pouco pensada para elas.

São poucos os meninos e meninas de Macau que sujam as mãos de terra, que esfolam os joelhos e ganham anticorpos a correr transpirados num dia de “chuva molha tolos”. Os meninos e meninas de Macau caminham pelos trilhos de Coloane de mão dada com os pais, arrastados pelo braço de modo a não conseguirem alcançar com a mão um pau ou pedra para brincar.

Ainda não sou mãe e sei que é mais fácil planear que vou deixar os meus filhos correrem à chuva e comerem “sopa de flores” do que um dia vir a deixá-los fazer o que efectivamente lhes apetece.

De qualquer das formas, que fique claro que não sou apologista que todas as crianças subitamente se transformem em Tom Sawyers e comecem a trepar as árvores do parque, mas defendo que se pense duas vezes antes de se encher os parques de Macau de placas e de muros à volta.

Uma criança precisa de brincar, de criar e de explorar e, para isso, precisa de uma cidade que antes de pensar se o pequeno habitante será um bom profissional no futuro, pense se ele é uma criança feliz e não aborrecida como o João, até porque, quando se tornar adulto terá tempo suficiente para andar aborrecido.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s