Macau, a história sem fim

Activo Estratégico

Patrícia Silva Alves

Mergulhar na história de Macau é como andar nas ruas dos bairros antigos: a realidade desdobra-se à nossa frente como um labirinto que não tem fim. É como se a sua história – e as suas ruas – fossem elásticas. Há sempre um novo olhar, um detalhe fresco e à espera que o saibamos ver. Mais: conhecer a história de Macau parece ser uma descoberta constante. É como se os factos precisassem dos nossos olhos para existir e das nossas canetas para não morrerem no esquecimento.

Numa passagem introdutória do seu livro “As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau”, João Guedes cita o escritor britânico Austin Coats, com quem o jornalista se correspondeu, e que diz isso de uma forma simples e transparente: “Uma das mais atraentes particularidades de Macau é que a sua história é uma aventura. Os estudiosos continuam a fazer nela sempre novas descobertas. Por isso, nenhum de nós leva a mal que os que vêm depois nos contradigam; e estes evitam sempre fazê-lo liminarmente. É uma espécie de clube. Quando um facto novo vem à luz, todos respiramos de alívio e nos congratulamos com a descoberta.”

Por isso, como refere o mesmo escritor, registar a história de Macau é um exercício de constante revisão e de muita humildade: “Digo apenas o que digo ser correcto”, afirma por isso.

A multiplicidade de realidades que se sobrepõem em Macau é como um cubo mágico para quem tenta encontrar um fio condutor que explique a sua lógica. Um exemplo que achei particularmente interessante é a postura do escritor Joe Tang que com o seu conto “O Assassino” fez o exercício mais justo em relação ao que se passa em Macau: olhou para a história do homicídio do Governador Ferreira do Amaral sob a perspectiva portuguesa e chinesa. Porque as contingências de uma implicam a outra, é preciso olhar para a história de Macau sob as duas forças que durante séculos conviveram e se limitaram mutuamente. É revelador que a tentativa de olhar para os dois lados que se opuseram na morte do Governador tenha resultado em versões tão distintas que o autor não conseguiu retirar uma só conclusão. Aliás, ao analisar o episódio com atenção, Joe Tang sentiu a necessidade de explorar três pontos de vista: do Governador, do homem que o matou e do Governador de Guangdong.

Macau sempre teve vocação de guardador de segredos. É como se fosse um grande corredor onde se desenrolam as conversas verdadeiramente importantes. E, percebo agora, talvez seja por isso que é tão importante ouvir e perceber os silêncios aqui nesta terra.

A falta de uma História de Macau é o resultado desta vocação para o sigilo, para a conivência que existe aqui. Percebo a razão: uma terra que abriga foragidos sem critério e troca o seu silêncio pelas riquezas que eles lhe podem dar, tem sempre esqueletos escondidos no armário. Eu entendo que em Macau todos sabem os segredos que circulam boca-a-boca e que raras vezes são imortalizados ao ponto de se tornarem conhecimento comum no futuro. Eu sei que é assim – em Macau a história morre quando morre alguém daqui e só aí se eterniza sob a forma de mito. O que seria do mito se houvesse que o desminta?

É por isso que são precisos mais exercícios como o de Joe Tang. Porque Macau é complexo, inconciliável e porque esta eterna novidade – que nos encanta e confundo – é o reflexo de uma terra onde as histórias não têm fim.

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